Um manifesto intitulado “A nova safra do agro é regenerativa” reúne 14 mil produtores rurais e entidades do agronegócio em um apelo pela expansão e aceleração da agricultura regenerativa no Brasil. Elaborado pela Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (FERA), o documento propõe medidas concretas para facilitar a adoção dessas práticas, incluindo maior acesso a crédito rural, assistência técnica especializada e a criação de mercados que remunerem os produtores engajados na transição para sistemas mais sustentáveis.
Segundo a FERA, a agricultura regenerativa já é uma realidade em diversas propriedades brasileiras, oferecendo soluções para desafios como as mudanças climáticas, a volatilidade dos custos de insumos químicos importados e a dependência desses produtos. O cerne da abordagem reside na recuperação e conservação do solo e dos recursos naturais, buscando um equilíbrio entre a alta produtividade agrícola e uma maior resiliência das propriedades rurais. Solos manejados sob princípios regenerativos, por exemplo, demonstram maior capacidade de retenção hídrica e resistência a períodos de estiagem, enquanto pastagens bem geridas podem sustentar maior produção pecuária em áreas menores. A entidade também ressalta o potencial dessas práticas em recuperar terras degradadas ou antes consideradas improdutivas.
Preparando o Terreno para a Regeneração
A expansão da agricultura regenerativa, conforme defendido pela FERA, transcende a iniciativa individual dos produtores. O manifesto enfatiza a necessidade de políticas públicas robustas que reconheçam as particularidades da transição entre sistemas produtivos. Um dos pontos cruciais é a reformulação do crédito rural, com linhas de financiamento que considerem o tempo e o investimento necessários para que os benefícios plenos das novas práticas se manifestem na propriedade. Adicionalmente, a Frente pleiteia uma maior oferta de assistência técnica, especialmente para agricultores em regiões mais remotas, e o desenvolvimento de mecanismos que conectem esses produtores a mercados dispostos a atribuir um valor justo aos atributos da produção regenerativa. A entidade compara a necessidade de infraestrutura para a adoção dessas práticas ao preparo do solo antes de uma colheita bem-sucedida, indicando que a transição do modelo atual para o regenerativo requer um ecossistema de apoio.
Clima e Mercado: Impulsores da Mudança
O manifesto posiciona a agricultura regenerativa como uma resposta estratégica às transformações estruturais que o agronegócio brasileiro enfrenta. Eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos, a já mencionada dependência de insumos químicos importados e as crescentes exigências de consumidores e mercados internacionais quanto à origem e às condições de produção dos alimentos são fatores que pressionam por uma mudança de paradigma. A FERA argumenta que a ampliação das práticas regenerativas pode simultaneamente aumentar a produtividade, mitigar riscos operacionais e garantir a sustentabilidade da capacidade produtiva a longo prazo. A proposta é que governo, empresas, produtores e demais elos da cadeia agropecuária colaborem para disseminar essas práticas por todo o campo brasileiro, promovendo um modelo mais resiliente e competitivo.
Implicações para o Ecossistema Agropecuário
A demanda por agricultura regenerativa tem implicações profundas para diversos atores do agronegócio. Para os produtores, representa uma oportunidade de reduzir custos com insumos, aumentar a resiliência de suas lavouras e rebanhos frente a eventos climáticos extremos e, potencialmente, acessar novos mercados com valor agregado. Para o governo, o manifesto sinaliza a urgência de adaptar políticas de crédito e assistência técnica, reconhecendo a agricultura regenerativa como um vetor de desenvolvimento sustentável e segurança alimentar. Empresas de insumos químicos podem ver uma pressão por modelos de negócio alternativos, enquanto o setor de alimentos e bebidas, cada vez mais atento às demandas dos consumidores por rastreabilidade e sustentabilidade, pode encontrar na agricultura regenerativa uma fonte de matéria-prima diferenciada. A adoção em larga escala também pode fortalecer a imagem do agronegócio brasileiro no cenário internacional, cada vez mais sensível a questões ambientais e de sustentabilidade.
Perguntas em Aberto para o Futuro
Embora o manifesto apresente um roteiro claro para a expansão da agricultura regenerativa, diversas questões permanecem em aberto. A viabilidade e a escala de implementação de políticas públicas de crédito e assistência técnica que atendam às demandas específicas da transição regenerativa ainda precisam ser detalhadas e comprovadas. A criação de mecanismos de mercado que efetivamente valorizem os atributos da produção regenerativa, garantindo um retorno financeiro atrativo para os produtores, é outro ponto que demandará desenvolvimento e articulação. Resta saber também qual será a resposta do setor privado, incluindo tradings e empresas de alimentos, em termos de investimentos e parcerias para apoicar essa transformação em larga escala e como as mudanças climáticas continuarão a influenciar a urgência e a direção dessas práticas.
A iniciativa da FERA, ao reunir um número expressivo de produtores, lança luz sobre um movimento crescente no campo brasileiro. A articulação entre o setor produtivo e a demanda por políticas públicas eficazes é um passo fundamental para que a agricultura regenerativa deixe de ser uma exceção e se consolide como um pilar do futuro do agronegócio nacional, capaz de conciliar produção, preservação ambiental e prosperidade econômica. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times — Mercados





