Sete de cada dez fundos de dívida alternativa antecipam que os vencimentos dos empréstimos concedidos pelo Instituto de Crédito Oficial (ICO) na Espanha desencadearão um novo ciclo de refinanciamentos no país nos próximos 12 a 24 meses. A projeção é do ‘VI Barômetro de Fondos de Financiación Alternativa’, estudo da consultoria BDO. Entre 2019 e 2024, o ICO, em conjunto com financiamentos bancários por ele garantidos, movimentou cerca de 140,7 bilhões de euros. A consultoria ressalta que os calendários de amortização desses créditos continuarão a ter impacto nos próximos exercícios fiscais.
Vencimentos do ICO como motor do mercado
Pablo Simón, sócio responsável por Debt Advisory e Restructuring na BDO, explica que os vencimentos dos empréstimos do ICO serão o principal motor do próximo ciclo de mercado. Empresas precisarão adaptar seus planos de pagamento para oferecer soluções flexíveis em situações onde a banca tradicional pode apresentar limitações. Ao mesmo tempo, observa-se um endurecimento nos critérios de investimento, com maior ênfase em garantias e alavancagem. Para companhias que recuperaram sua rentabilidade, o desafio reside em alinhar o calendário de vencimentos à sua capacidade real de geração de caixa. Em casos com menor margem de manobra, soluções mais abrangentes, como extensões de prazo, períodos de carência, nova liquidez ou estruturas de pagamento único (bullet), serão necessárias.
Atualmente, refinanciamentos representam menos de 10% das oportunidades analisadas para 61% dos fundos. Contudo, 39% reportam que ao menos uma em cada dez oportunidades está ligada a esses processos. Essa tendência se reflete na qualidade creditícia das carteiras. Mais de 80% dos fundos mantêm taxas de inadimplência inferiores a 2%. No entanto, o percentual de fundos sem inadimplência caiu de 63% para 40% em um ano, enquanto aqueles com taxas moderadas aumentaram de 23% para 42%, coincidindo com o início dos vencimentos mais desafiadores.
Otimismo econômico e resiliência do mercado
O barômetro da BDO também aponta para um otimismo generalizado em relação à economia espanhola. Cerca de 95% dos fundos esperam uma evolução favorável nos próximos 12 a 18 meses, com 68% prevendo uma melhora moderada do PIB e 26% antecipando um crescimento mais significativo, acima da média europeia. Essa confiança macroeconômica se traduz na atividade dos próprios fundos. Apesar da inflação crescente e da volatilidade das taxas de juros, 63% dos entrevistados mantiveram estável o número de operações analisadas ou financiadas no último ano, e aproximadamente um quarto aumentou o volume de negócios. O estudo conclui que o contexto econômico atual não freia o mercado de financiamento alternativo, mas sim gera novas oportunidades.
Prudência creditícia e critérios de investimento
Os critérios de aprovação de operações evidenciam uma evolução em direção a uma maior proteção contra cenários adversos. A estrutura de garantias emerge como o fator mais determinante, com 23% das menções, seguida pela capacidade de geração de caixa (21%). Em comparação com o ano anterior, onde a diferença entre ambos era de quase 10%, a estrutura de garantias agora supera a geração de caixa, embora ambas as variáveis tendam a se igualar. O volume médio de financiamento declarado por 39% dos fundos é inferior a 5 milhões de euros, configurando o segmento mais representativo. Essa segmentação demonstra a capacidade do mercado em atender tanto operações do 'lower middle market' quanto financiamentos de maior porte, adaptando-se à estrutura empresarial espanhola, marcada pela alta presença de PMEs.
Foco em 'sponsor' e setores estratégicos
Elementos não financeiros ganham peso nas decisões de investimento, enquanto os critérios ESG (Ambiental, Social e Governança) perdem importância, caindo de 10% para 5%. A tecnologia também recuou de 20% para 10%. A qualidade do 'sponsor' (quem garante o investimento) ou da equipe gestora é o principal fator não financeiro considerado pelos fundos (34%), seguido pelo setor de atividade (29%). Ambos aspectos aumentaram sua relevância. Essa mudança de percepção favorece setores tradicionalmente limitados por critérios ESG. Defesa e Segurança, e Saúde e Biotecnologia consolidaram-se como os setores mais atrativos, com 74% de avaliações positivas em ambos os casos.
O cenário delineado pela BDO sugere um mercado de financiamento alternativo dinâmico e adaptável na Espanha, pronto para absorver os vencimentos de dívidas do ICO e gerar novas oportunidades de negócio. A crescente prudência creditícia, aliada a um foco renovado em garantias e na qualidade dos gestores, moldará as futuras operações. Resta observar como a banca tradicional responderá a essas novas demandas e se a confiança na economia espanhola se sustentará diante de um cenário global volátil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





