A inteligência artificial (IA) tem sido apresentada como a tecnologia capaz de revolucionar a tomada de decisões empresariais, otimizando processos e impulsionando resultados. Contudo, uma pesquisa recente da FICO, divulgada durante o FICO Forum 2026, expõe uma realidade contrastante: a vasta maioria das empresas ainda opera sem o suporte da IA em suas atividades decisórias mais importantes. Segundo o estudo State of Responsible AI 2026, impressionantes 71,5% das ações com impacto direto no cliente são tomadas sem o auxílio dessa tecnologia. Em vez disso, os executivos recorrem predominantemente ao julgamento humano (33,3%), sistemas baseados em regras (21,4%) e ferramentas de analítica tradicional (16,8%).

Desconfiança e o Custo da Explicabilidade

Apesar de 85,1% dos entrevistados afirmarem que a IA atendeu ou superou suas expectativas de retorno sobre o investimento (ROI), a confiança na tecnologia para embasar decisões críticas ainda é baixa. Apenas 5,2% dos participantes se sentem muito confiantes em explicar decisões orientadas por IA. Essa reticência, segundo Scott Zoldi, Chief Analytics Officer (CAO) da FICO, deriva da falta de clareza sobre a responsabilidade e a ética na aplicação da IA. "As pessoas desconfiam porque veem alucinações da IA e não conseguem ver exatamente de que forma a ferramenta está agindo", explicou Zoldi. Ele ressalta que, embora o critério correto de sucesso da IA deva considerar valores como ética, capacidade de interpretação e baixo impacto, muitas organizações ainda priorizam a performance como principal indicador de desempenho. Essa mentalidade, que foca no resultado imediato em detrimento da governança, assume riscos reputacionais e regulatórios em troca de lucros de curto prazo.

A Busca por Colaboração e Transparência

Para superar esses obstáculos e maximizar os benefícios operacionais da IA, quase a totalidade dos entrevistados (96,4%) acredita que uma colaboração mais estreita entre as lideranças de IA e tecnologia, apoiada por uma plataforma compartilhada, seria fundamental para gerar retornos adicionais. A integração fluida entre áreas estratégicas é vista como a chave para modernizar as arquiteturas de dados e permitir um fluxo decisório mais transparente, seguro e eficiente. A FICO enfatiza que o foco no desempenho imediato não deve sobrepor os princípios de auditoria e conformidade nas rotinas corporativas. "A maioria das organizações consegue dizer onde e o que a IA decidiu. Muito poucas conseguem explicar o porquê", destacou Zoldi, evidenciando a carência de padrões e técnicas de IA responsável que impacta diretamente a disposição em usar a IA em decisões que afetam os clientes. A abordagem metodológica na implementação dessas ferramentas estratégicas precisa ser urgentemente remodelada.

O Futuro do Trabalho e os Riscos da Adoção

Olhando para os próximos cinco anos, o principal risco apontado por 63,2% dos entrevistados é a defasagem das habilidades da força de trabalho em relação ao ritmo de adoção da IA. Em contrapartida, apenas 10,4% consideram a perda de controle sobre os sistemas de IA um risco relevante, posicionando essa preocupação em último lugar. Esse cenário sublinha a necessidade crítica de investimento contínuo no desenvolvimento e capacitação de talentos para acompanhar a evolução tecnológica. A priorização do retorno financeiro, aliada à pressão por resultados rápidos, leva muitas empresas a adotarem a IA focando no desempenho imediato e deixando a governança para depois, um movimento que, segundo Zoldi, assume um risco reputacional e regulatório considerável.

As empresas que buscam implementar IA de forma eficaz e responsável precisam equilibrar a busca por performance com a necessidade de explicabilidade, ética e segurança. A colaboração interdepartamental e o desenvolvimento de talentos são pilares essenciais para navegar neste cenário complexo e garantir que a tecnologia seja uma aliada confiável nas decisões de negócio. A jornada rumo a uma IA verdadeiramente responsável e integrada nas operações críticas ainda é longa, mas os benefícios potenciais para a eficiência e a confiança do cliente são inegáveis. A questão central permanece: quando as empresas finalmente darão o passo para confiar e explicar as decisões tomadas por suas ferramentas de IA?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside