A adoção de Inteligência Artificial (IA) pelas empresas brasileiras atingiu um patamar expressivo, com 80% das organizações já utilizando a tecnologia em suas operações. No entanto, um estudo recente da TOTVS, realizado em parceria com o MIT Sloan Management Review (MIT SMR), revela uma lacuna crítica: 93% dessas empresas aplicam a IA de maneira desestruturada, sem integrá-la efetivamente às suas estratégias de negócio. Essa falta de alinhamento estratégico compromete significativamente o potencial de geração de valor da tecnologia.
O levantamento, intitulado “Da adoção à escala: a maturidade da inteligência artificial nas empresas brasileiras”, aponta que o uso desorganizado da IA é um dos principais gargalos. Dennis Herszkowicz, CEO da TOTVS, explicou que, embora as empresas tenham superado as barreiras iniciais de experimentação, a otimização e a entrega de resultados esperados ainda estão distantes. A IA, em sua visão, está posicionada como uma ferramenta com grande potencial, mas que não está sendo plenamente incorporada ao planejamento corporativo, o que limita seu impacto.
Desafios na Integração e Coordenação
A pesquisa também evidencia dificuldades na coordenação entre os diferentes setores de uma mesma empresa. Cerca de 40% das organizações não promovem uma integração constante e profunda do uso da IA em toda a sua estrutura. Essa fragmentação impede que os benefícios da tecnologia sejam maximizados e que uma visão unificada sobre seu emprego seja estabelecida. A falta de um diálogo interdepartamental eficaz sobre IA pode levar à duplicação de esforços, ineficiências e à perda de oportunidades de sinergia.
Além disso, a gestão financeira da IA apresenta sérios desafios. Uma grande maioria, 86% das empresas, não mede os custos associados à implementação e manutenção de soluções de IA. Similarmente, 88% enfrentam dificuldades em mensurar o retorno financeiro obtido a partir dessas aplicações. Essa ausência de métricas claras impede que as empresas avaliem a eficácia de seus investimentos em IA e tomem decisões informadas sobre futuras alocações de recursos, criando um ciclo de incerteza sobre o valor real da tecnologia.
A Crise dos Dados e a Governança
Um obstáculo fundamental para a aplicação estratégica da IA reside no acesso e na organização dos dados. Apenas 46% dos entrevistados relatam que a IA consegue acessar os dados das empresas de forma automática. Para a maioria, o acesso ao insumo mais crucial para o funcionamento da IA — os dados — ainda é um gargalo. Gustavo Bastos, Vice-Presidente de Plataformas de TI da TOTVS, ressalta que não é possível escalar a IA sem dados organizados, integrados e com governança adequada. A conexão lógica entre dados, sistemas e IA é o novo desafio, superando a simples adoção de ferramentas.
A governança de dados é, portanto, um pré-requisito para que a IA seja verdadeiramente incorporada aos sistemas de gestão e processos estruturados. A operação com dados confiáveis e fluxos automatizados é o caminho para que as empresas consigam romper a barreira dos 93% de uso desestruturado. Sem essa base sólida, o potencial da IA permanecerá subutilizado, limitando sua contribuição para a eficiência operacional e a tomada de decisões.
O Fator Humano e o Letramento
Outro ponto crucial abordado pelo relatório é a governança da IA e o letramento dos profissionais. Embora 37% dos colaboradores admitam ter pouco conhecimento sobre a aplicação da inteligência artificial, apenas 7% das organizações oferecem capacitação formal sobre o tema. Essa disparidade entre a necessidade de conhecimento e a oferta de treinamento é um entrave significativo para a adoção eficaz e responsável da IA.
Herszkowicz enfatiza a importância do "human in the loop", onde a inteligência humana continua essencial para a tomada de decisões críticas. A aliança entre a inteligência humana e artificial exige que a utilização da IA se torne parte integrante da cultura corporativa, e não apenas uma habilidade de indivíduos específicos. Investir na ampliação dessa cultura é fundamental para garantir que a IA seja utilizada corretamente e de forma escalável em todas as organizações, envolvendo desde os C-Levels até os colaboradores da linha de frente.
Perguntas em Aberto
Apesar dos avanços na experimentação com IA, o caminho para sua integração estratégica e mensuração de resultados ainda é longo para a maioria das empresas brasileiras. A pesquisa da TOTVS lança luz sobre os desafios de governança de dados, coordenação interdepartamental e letramento profissional, que precisam ser superados para que a tecnologia entregue seu valor máximo.
Resta saber como as empresas brasileiras irão priorizar e implementar as mudanças necessárias em suas estruturas e culturas para transformar o uso da IA de uma prática experimental e desestruturada em um pilar estratégico. A capacidade de organizar dados, integrar sistemas e capacitar pessoas definirá o sucesso a longo prazo na era da inteligência artificial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





