Pense no início dos anos 2000. O bug do milênio era uma memória recente, a internet discada ainda ecoava em muitas casas e o design de produtos era obcecado por uma visão de futuro que hoje parece curiosamente datada: plásticos translúcidos, formas orgânicas e uma fé quase ingênua na tecnologia visível. Foi nesse caldeirão estético que a Adidas criou a linha Megaride, com seu sistema de amortecimento exposto que parecia saído de um filme de ficção científica.
Agora, essa visão de futuro do passado retorna, mas com uma roupagem mais cínica e agressiva. A colaboração entre a Adidas e a Hellstar, marca de streetwear de Los Angeles conhecida por sua energia gráfica e sombria, desconstrói o modelo Megaride S2. O resultado é um artefato que captura o espírito da época, mas o filtra pela lente de 2024.
A desconstrução de um clássico
Onde o Megaride S2 original apostava em uma gaiola de plástico (TPU) para estrutura, a Hellstar a removeu, optando por sobreposições sintéticas mais lisas. A mudança mais radical, no entanto, é a adição de uma cobertura com zíper que esconde os cadarços, uma solução funcional que transforma completamente a silhueta do calçado. Sobre a base branca, gráficos de chamas — que a própria fonte descreve como dignos de uma “tramp stamp” — estendem-se pelas laterais, evocando a cultura de customização de carros e a estética tribal que marcaram o período.
O movimento da Hellstar é mais do que uma simples aplicação de cores e logos. É uma reengenharia que questiona o design original. Ao invés de apenas celebrar a nostalgia, a marca a subverte. A tecnologia de amortecimento Megaride, com seus pilares abertos no calcanhar, permanece como uma relíquia visível daquela obsessão tecnológica, mas o restante do tênis fala uma língua diferente: a da apropriação e da reinterpretação cultural.
Nostalgia sem filtro
A colaboração chega em um momento em que a estética Y2K domina a moda, mas propõe uma leitura distinta. Em vez da nostalgia adocicada e otimista que vemos em outras releituras, a versão da Hellstar é declaradamente agressiva e um tanto anárquica. As chamas, o zíper, o contraste forte entre preto e branco — tudo aponta para um lado menos polido e mais rebelde do início do século.
Este não é um tênis para quem sente uma saudade branda dos anos 2000. É para quem entende a estranheza e a ousadia daquele momento de transição. A parceria sugere que a nostalgia mais potente não é a que recria o passado fielmente, mas a que captura seu espírito e o injeta com as ansiedades e a atitude do presente. É uma lembrança de que o futuro imaginado em 2001 era, ao mesmo tempo, funcional e fantasticamente exagerado.
O relançamento do Megaride S2 pela Hellstar não é apenas sobre vender um produto retrô. É um comentário sobre como revisitamos o passado. A pergunta que o tênis deixa no ar não é se gostamos do design, mas o que a sua ressurreição, com toda a sua carga gráfica e atitude desafiadora, diz sobre o tipo de memória que escolhemos carregar nos pés.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Highsnobiety





