Ao atravessar a Ponte dell’Accademia em direção ao Palazzo Contarini Polignac, o visitante é recebido pela luminosidade quase irreal de Veneza. A água dos canais reflete um cenário de tranquilidade que parece distante de qualquer conflito. No entanto, ao cruzar o limiar da exposição 'Still Joy — From Ukraine Into the World', essa percepção de paz é subitamente confrontada. O que se encontra lá dentro não é o registro documental da destruição, mas uma investigação profunda sobre a persistência da alegria como um mecanismo vital de sobrevivência. A mostra, organizada pela Victor Pinchuk Foundation, propõe um deslocamento conceitual: a alegria deixa de ser um estado de espírito leve para se tornar uma forma de resistência política diante da aniquilação.

A estética da persistência

O início da exposição é marcado pelo díptico em vídeo de Yarema Malashchuk e Roman Khimei, que documenta raves em Kyiv em dois momentos distintos: antes e depois da invasão em larga escala. A semelhança entre os rostos e a pulsação da trilha sonora cria uma estranheza proposital, sugerindo que a necessidade de conexão humana permanece intacta, independentemente da escala da violência externa. É um lembrete de que a vida, em sua forma mais visceral e festiva, não cessa simplesmente porque o mundo ao redor desmorona. A curadoria, assinada por Björn Geldhof e Oleksandra Pogrebnyak, habilmente evita o sentimentalismo fácil ao confrontar o espectador com a crueza de relatos como o do veterano Hlib Stryzhko. Ao descrever o ato de dividir um chocolate durante o cativeiro, Stryzhko não narra apenas um doce, mas um momento de humanidade que, por um instante, suspende a barbárie.

A materialidade do afeto

A transição para as instalações físicas, como a obra de Simone Post, amplia essa discussão para o campo do sensorial. O uso de objetos domésticos e luminárias feitas de doces, banhados pela luz natural que entra pelos canais venezianos, força o espectador a questionar os limites do que é doce e do que é insuportável. A obra de Zhanna Kadyrova, que apresenta plantas coletadas em zonas de ruína na Ucrânia, funciona como um contraponto botânico a essa doçura. Essas plantas, que ainda prosperam apesar do ambiente de devastação, são metáforas vivas para a resiliência. A arte aqui não tenta explicar o conflito, mas sim preencher as lacunas que a linguagem falha em cobrir, traduzindo o trauma em algo que pode ser tocado e sentido.

O abismo entre o observador e o vivenciado

Existe uma tensão inerente em trazer essa exposição para o contexto de um evento cultural como a Bienal de Veneza. Enquanto o público externo observa as obras com a contemplação típica de um turista cultural, os artistas ucranianos operam a partir de um paradigma de sobrevivência que permanece, em grande parte, inacessível a quem não viveu o conflito. A citação do historiador Niall Ferguson, estrategicamente posicionada na exposição, sintetiza esse abismo: a alegria é o que permite ao indivíduo manter a lucidez em condições atrozes. Para o observador, o choque reside justamente em compreender que a nossa compreensão da guerra, baseada em imagens de destruição, é fundamentalmente incompleta. Falta-nos o acesso à complexidade emocional daqueles que, mesmo sob bombardeio, buscam o conforto poético do canto de um pássaro.

A persistência do horizonte

A exposição encerra-se não com respostas, mas com a persistência de perguntas sobre o futuro e a memória. O trabalho de Khimei e Malashchuk, que mostra um jovem explorando sua cidade natal através de um robô, ilustra uma realidade de exílio e mediação digital que define a juventude ucraniana atual. Eles habitam um espaço que não podem mais tocar, mas que, através da tecnologia e da imaginação, continuam a habitar. Ao sair do Palazzo Contarini Polignac e retornar ao movimento dos vaporettos, o visitante carrega consigo a dúvida: se a alegria é, de fato, a última fronteira da resistência, o que acontece quando a possibilidade de retorno se torna um horizonte cada vez mais distante? A arte ucraniana em Veneza não oferece um final feliz, mas exige que reconheçamos a força contida na capacidade de continuar sentindo.

Com reportagem de Designboom

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