Um surto nacional de cyclospora nos Estados Unidos, associado a alface contaminada, acendeu um alerta sobre a segurança de alimentos importados. O episódio, no entanto, é menos um acidente e mais um sintoma de uma tendência de longo prazo: a Food and Drug Administration (FDA), agência que regula alimentos e medicamentos no país, está realizando cada vez menos inspeções internacionais para interceptar produtos contaminados antes que cheguem à mesa dos americanos.
Segundo uma reportagem da Associated Press, as inspeções da FDA em instalações de alimentos no exterior — incluindo a fazenda mexicana ligada ao surto atual — caíram quase 35% desde 2019. A leitura aqui não é apenas sobre os efeitos da pandemia, mas sobre um esvaziamento estrutural. A agência, que já falhava em cumprir suas metas de fiscalização antes da Covid-19, agora lida com os efeitos de aposentadorias, cortes de pessoal e um desmonte administrativo que compromete sua capacidade de execução.
O desmonte regulatório
A crise na FDA é multifatorial. A pandemia acelerou uma onda de saídas e aposentadorias de inspetores que persiste até hoje. Contudo, o problema é anterior. A Lei de Modernização da Segurança Alimentar, de 2011, estabeleceu a meta de inspecionar mais de 19.000 locais internacionais por ano. A agência nunca chegou perto desse número, atingindo um pico histórico de apenas 1.700 em 2019 — menos de 10% do alvo. Segundo ex-funcionários, a meta sempre foi irrealista e desacompanhada do financiamento necessário pelo Congresso.
Soma-se a isso um enfraquecimento deliberado. A administração Trump promoveu cortes de pessoal que, embora não mirassem diretamente os inspetores, atingiram áreas de suporte, como as equipes que agendam viagens. Isso deixou os fiscais responsáveis por sua própria logística, adicionando uma camada de burocracia a um trabalho já desgastante. Para ex-dirigentes da agência, a conclusão é direta: a FDA simplesmente não consegue cumprir o que lhe é exigido com os recursos que possui.
Resposta lenta, problema crônico
O caso da Taylor Farms, produtora da alface contaminada, é emblemático. Demorou um mês para que os inspetores da FDA chegassem à fazenda da empresa no México após o anúncio do recall. Para especialistas, a demora é inaceitável para produtos frescos, cujos ecossistemas são complexos e mudam rapidamente. A lentidão expõe uma paralisia operacional que vai além da falta de pessoal e entra no campo da capacidade de resposta a crises.
A defesa da FDA é que as inspeções são apenas uma de várias ferramentas, que incluem amostragem na fronteira e fiscalização de importadores. O surto atual, no entanto, evidencia as falhas dessa abordagem. A agência foi forçada a retratar um resultado de teste que, por engano, havia detectado o parasita em uma amostra. Enquanto isso, soluções como a rastreabilidade via código de barras, previstas na lei de 2011, tiveram sua implementação novamente adiada pela FDA após pressão da indústria.
O cenário sugere que, sem uma reforma estrutural e um compromisso político com o financiamento adequado, incidentes como este deixarão de ser exceção para se tornarem a regra. A segurança alimentar parece estar refém de uma equação que opõe orçamentos limitados, lobby da indústria e a missão fundamental de proteger a saúde pública.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





