A rotunda do Guggenheim, em Nova York, está tomada. São mais de mil fotografias e milhares de palavras que escalam a icônica espiral de Frank Lloyd Wright. A obra é da artista conceitual Taryn Simon e, embora sua instalação seja uma das poucas comissões de peso para marcar os 250 anos da fundação dos Estados Unidos, o sentimento que ela evoca não é de celebração, mas de uma paranoia meticulosamente orquestrada.
Intitulada 'Father Country I Do Love You', a exposição é uma espécie de biografia fragmentada de um agente anônimo do FBI, com quem Simon passou a última década em conversas. Segundo a reportagem da revista ARTnews, que acompanhou a abertura, o projeto funciona menos como um retrato e mais como um mergulho profundo na psique de uma nação. Simon usa a vida do espião como um fio condutor para tecer uma tapeçaria complexa sobre vigilância, mentiras, violência e intervenção estrangeira — temas intrinsecamente americanos.
A teia do espião
Tudo começou em 2017, quando a artista encontrou o nome do agente em arquivos desclassificados do FBI dos anos 1990. Ela o localizou e iniciou uma série de entrevistas que se tornaram a espinha dorsal do projeto. A identidade do homem, no entanto, permanece oculta. A intenção, segundo Simon, é criar a sensação de que ele poderia ser qualquer um — um arquétipo do aparato de inteligência que opera nas sombras da história oficial.
A partir dessa figura central, Simon expande sua investigação em um mosaico vertiginoso. As conexões são difusas, por vezes tênues, e parecem deliberadamente desenhadas para confundir. Uma imagem aparentemente inocente de um parque na Virgínia revela-se o local onde Robert Hanssen, notório agente duplo do FBI, deixava mensagens para a KGB. Em outra ponta, a artista fotografa a atriz Jodie Foster, que interpretou a agente do FBI Clarice Starling em 'O Silêncio dos Inocentes'. O agente anônimo de Simon alega tê-la visto treinar para o papel, uma coincidência inverificável que embaralha ainda mais os limites entre o real e o representado.
Verdade como matéria-prima
Essa obsessão em desestabilizar a verdade não é nova na obra de Simon. Projetos anteriores, como 'The Innocents', que retratava homens condenados injustamente, já exploravam a fragilidade da prova e da memória. Aqui, a artista leva a premissa ao extremo. A precisão dos fatos torna-se secundária; o que importa é a arquitetura da suspeita que ela constrói. Como o próprio agente diz em um dos textos que acompanham as imagens, a propósito de um acidente aéreo misterioso: “Certas coisas não podem ser provadas”.
Ao semear a narrativa com meias-verdades, memórias falhas e ficções, Simon força o espectador a uma posição desconfortável. É possível confiar na artista? O que é fato e o que é invenção? A sensação é a de que a história americana se tornou caótica, sem bordas definidas e permanentemente sujeita a revisões. Ela resiste à noção de um passado consolidado, confinado às fronteiras de um país, como o poder estabelecido gostaria que fosse.
No fim, a experiência de percorrer a exposição é como tentar decifrar um emaranhado. Um psiquiatra que trata membros da comunidade de inteligência, citado na obra, diz a Simon: “As pessoas chegam com suas histórias todas embaralhadas dentro de si”. Ao transformar o Guggenheim em um divã para a identidade americana, Simon não oferece respostas. Apenas deixa que a nação, ao processar 250 anos de ansiedade e contradições, continue a se enredar em seus próprios nós.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





