No corredor da Primeira Igreja Congregacional de Long Beach, na Califórnia, a procissão era incomum. Dezenas de artistas desfilavam vestindo fantasias gigantes de vulvas, cada uma decorada de forma única, sob os olhares de cerca de 400 convidados. Algumas eram adornadas com piercings, outras traziam mensagens políticas contundentes, como denúncias contra a violência de agências de imigração a mulheres grávidas. O sagrado e o profano se encontravam em uma celebração da anatomia humana.

Este é o “Vulva Gala”, o evento anual do School of Sexuality Project, uma iniciativa fundada em 2020 por Bridgett Khoury. Segundo uma entrevista ao portal Hyperallergic, o objetivo de Khoury é "romper com o modelo de palestras áridas e excessivamente médicas" sobre sexualidade e adotar um "formato de simpósio-festival que constrói comunidade". Para isso, a arte e o humor são as ferramentas centrais para tornar um assunto desconfortável um pouco mais acessível.

Uma tela para o corpo

O coração do projeto são as fantasias. Em um detalhe que revela a natureza íntima e comunitária da iniciativa, cada uma das bases anatômicas é costurada à mão pelo pai de Khoury, em uma diversa coleção de tons de pele e formatos. Em fevereiro, o projeto distribuiu dezenas dessas peças, como telas em branco, a artistas da região de Los Angeles com um convite: criar algo que refletisse suas experiências vividas e celebrasse seus corpos.

O resultado foi um mosaico de expressões. “Dar essas telas em branco aos artistas deu a eles a oportunidade de contar sua história”, afirmou Khoury. A fantasia deixou de ser apenas uma representação anatômica para se tornar um veículo para narrativas pessoais e coletivas, transformando o que é frequentemente escondido ou estigmatizado em uma obra de arte pública e ambulante.

O evento em si é a culminação desse processo criativo. Mais do que um desfile, é um ato de reapropriação do corpo e da conversa sobre ele. Ao ocupar um espaço tradicionalmente solene com uma expressão tão visceral e, para muitos, transgressora, o Vulva Gala não apenas educa, mas também questiona onde e como essas conversas devem acontecer. A anatomia, despida de tabu, vira ponto de encontro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic