Numa festa, um quadro abstrato chama a atenção de Aaron Sorkin. Por um momento, a obra o captura. A admiração, no entanto, evapora no instante em que o dono revela sua origem: o pintor não era humano, mas um algoritmo. “Fiquei impressionado com a tecnologia que poderia fazer aquilo”, relatou Sorkin em entrevista ao podcast “What I’ve Learned”, da Esquire. “Mas o que quer que eu estivesse sentindo sobre aquela pintura desapareceu.”

Nessa anedota reside a tese central do otimismo do aclamado roteirista sobre o avanço da inteligência artificial nas artes. Para o criador de “The West Wing” e “A Rede Social”, a tecnologia simplesmente “não vai funcionar” para criar arte genuína. A razão é a ausência de conexão emocional, o mesmo vácuo que ele observa em videojogos violentos, onde avatares ultrarrealistas são abatidos sem que o jogador sinta qualquer vínculo com eles. A arte, para Sorkin, depende de um autor, de uma intenção, de uma falha humana que reverbera no espectador.

O cronista da tecnologia

A posição de Sorkin é particularmente ressonante vinda do homem que dissecou a ascensão do Facebook e seu impacto na sociedade. É uma ironia fina que o roteirista que melhor narrou a primeira grande revolução digital do século agora se posicione com ceticismo diante da segunda. Seu próximo filme, intitulado “The Social Reckoning”, mergulhará nos bastidores do escândalo revelado pela whistleblower Frances Haugen, continuando sua crônica sobre como a tecnologia molda e, por vezes, deforma as relações humanas.

Enquanto Hollywood debate greves e o uso de IA para gerar roteiros e imagens, a visão de Sorkin não é a de um ludita, mas a de um artesão defendendo o seu ofício. Ele não teme a máquina, pois acredita que ela é incapaz de dominar o elemento que define sua obra: o diálogo rápido, a tensão moral e o drama que só podem emergir de uma consciência.

Sua confiança na resiliência da arte humana soa como uma aposta naquilo que a tecnologia não pode replicar. A questão que permanece é se sua visão é uma profecia precisa ou o último ato de um humanismo sob o cerco de uma nova lógica computacional.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider