O mercado de derivativos começou a precificar uma eleição presidencial mais competitiva no Brasil. Nos últimos dias, disparou a demanda por opções de compra (calls) atreladas tanto ao Ibovespa quanto ao ETF iShares MSCI Brazil (EWZ), negociado em Nova York. O movimento mais expressivo, segundo reportagem da Bloomberg, foi o salto no interesse por contratos que apostam em uma alta do Ibovespa para 200 mil pontos até novembro, após um eventual segundo turno.
A tese por trás da operação é direta: pesquisas de intenção de voto recentes, como as do BTG Pactual/Nexus e do Datafolha, apontam para uma diminuição da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre seu principal adversário, Flávio Bolsonaro. Para uma ala do mercado, uma disputa mais apertada aumenta a probabilidade de um resultado visto como mais favorável aos negócios, justificando a montagem de posições que capturariam um eventual rali das ações.
A assimetria da urna
O instrumento escolhido — opções — é a chave para entender a estratégia. Em um cenário de incerteza “binária”, como descreveu Rodrigo Santoro, diretor de renda variável da Bradesco Asset Management, as opções permitem uma exposição assimétrica. O mercado, que vinha embutindo um pessimismo considerável nos preços dos ativos brasileiros, vê agora uma chance de reprecificação positiva. Com as calls, o investidor participa de uma eventual alta, mas limita sua perda ao prêmio pago pela opção, caso o cenário otimista não se concretize.
Essa estrutura funciona como um seguro ou um bilhete de loteria de baixo custo relativo. Como afirmou João Luiz Braga, gestor da Encore Asset Management, “se o cenário favorável ao mercado se concretizar, os investidores podem ganhar muito dinheiro”. É uma forma calculada de apostar na virada sem comprometer um capital excessivo, especialmente quando a eleição é vista como um ponto de inflexão para a política fiscal e, consequentemente, para a trajetória dos juros.
Cautela versus Otimismo
Curiosamente, essa onda de otimismo no mercado de derivativos contrasta com a cautela que prevalece no mercado à vista. O real teve um dos piores desempenhos entre os emergentes em agosto, e o próprio Ibovespa acumula queda no mês. A volatilidade eleitoral levou bancos como JPMorgan e Morgan Stanley a rebaixarem recentemente suas recomendações para as ações brasileiras, citando justamente as incertezas políticas.
O cenário-base, contudo, ainda aponta para a reeleição do atual presidente. A consultoria Eurasia Group, por exemplo, estima essa probabilidade em 60%. Isso ajuda a explicar por que as apostas se concentram em opções, e não em uma compra massiva e direta de ações. O movimento é mais uma proteção ou uma aposta especulativa em um evento de menor probabilidade, mas alto impacto financeiro, do que uma convicção formada sobre o resultado da eleição.
O aumento do volume em derivativos é, portanto, menos uma previsão e mais um termômetro da ansiedade do mercado. Enquanto o humor no pregão é de cautela, as mesas de opções se tornaram o principal palco para se posicionar diante de um resultado que, para os investidores, parece cada vez menos definido. As próximas semanas dirão se essas apostas eram premonição ou apenas um hedge caro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





