O apetite pelo risco Brasil, que marcou o primeiro semestre, começa a dar sinais de esgotamento. Gestores de fundos globais como VanEck, Vontobel e Aberdeen estão reduzindo posições em ativos brasileiros, com destaque para o real, revertendo parte do que foi uma das operações de carry trade mais rentáveis do ano. O movimento, reportado pela Bloomberg, é uma resposta direta à crescente percepção de risco político com a aproximação da eleição presidencial de outubro.
Embora a campanha ainda não tenha começado oficialmente, a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de opinião acendeu um alerta nos mercados. O temor é uma repetição do cenário de instabilidade fiscal que atingiu o país no final de 2024, quando a desconfiança sobre a capacidade do governo de equilibrar as contas públicas levou o real a mínimas históricas. A tese que ganha corpo é que os juros altos, por si sós, podem não ser suficientes para compensar a volatilidade que se avizinha.
O fim do consenso
Até recentemente, a aposta no Brasil era quase um consenso. Com uma das taxas de juros reais mais elevadas do mundo, o país se tornou um destino favorito para o carry trade — estratégia que consiste em tomar empréstimos em moedas de juros baixos para investir em mercados de rendimento alto. O real acumula valorização de cerca de 6% contra o dólar no ano, mas a maré parece estar virando. “Faz sentido entrar no período eleitoral com um pouco menos de risco no Brasil”, afirmou Kieran Curtis, chefe de dívida de mercados emergentes da Aberdeen, à Bloomberg. A lógica não é apostar em um resultado, mas se preparar para a turbulência.
A mudança de humor foi catalisada por eventos concretos. Uma pesquisa recente, que mostrou uma vantagem maior de Lula sobre o adversário Flávio Bolsonaro, provocou uma venda generalizada do real. Na esteira, o JPMorgan cortou sua recomendação para ações brasileiras, afirmando preferir “ficar de fora a pagar pela incerteza”. O ETF iShares MSCI Brazil, principal porta de entrada de capital estrangeiro na bolsa, registrou sua maior saída diária desde 2013, um sinal inequívoco de que os investidores estão, de fato, agindo.
Sinais de estresse
A cautela não se restringe aos estrangeiros. Gestoras locais como Ibiuna Investimentos e Adam Capital também manifestam preocupação. Em carta a investidores, a Adam alertou que os juros reais dos títulos públicos, acima de 8%, atingiram um patamar “claramente insustentável”. O paradoxo é que o mesmo juro que atrai capital de curto prazo é um sintoma de desequilíbrio fiscal de longo prazo, elevando o custo da dívida pública e mascarando a dimensão dos desafios fiscais.
Para Thierry Larose, gestor da Vontobel, o real “não está precificando absolutamente nenhum desenvolvimento desfavorável no campo político”, o que sugere que há espaço para uma desvalorização maior. A questão que paira sobre o mercado foi bem formulada por Philip Fielding, da Fidelity International: o ajuste fiscal necessário para acalmar os ânimos virá por iniciativa própria do governo ou será imposto por uma nova crise de confiança e uma forte liquidação de ativos?
A movimentação recente dos gestores globais ainda não é uma debandada, mas um claro sinal de que a aposta monolítica no Brasil se desfez. O mercado agora se divide entre a atratividade matemática dos juros e o risco crescente da política. A precificação dessa incerteza, ao que tudo indica, está apenas começando.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





