A Copa do Mundo de 2026 representa um grande experimento em pragmatismo arquitetônico. Pela primeira vez em décadas, a final será disputada em uma arena projetada para futebol americano, o New York New Jersey Stadium. Em análise do Wall Street Journal publicada em 17 de julho de 2026, o arquiteto de estádios Yun Jansen, diretor da firma de engenharia Thornton Tomasetti, detalha como a decisão de usar a infraestrutura existente nos EUA, México e Canadá força uma série de compromissos. A FIFA flexibilizou suas diretrizes, mas uma regra permaneceu: todos os campos devem ter grama natural. Este requisito, por si só, expõe as complexas trocas envolvidas no design de uma arena, um balanço entre as condições para os jogadores, as linhas de visão para os fãs, a saúde do gramado e a viabilidade comercial do local, que precisa sediar outros eventos para gerar receita.

Estádios Abertos vs. Fechados

A tensão fundamental no design de estádios se manifesta na escolha entre arenas abertas e fechadas. Jansen aponta o estádio de Kansas City como um exemplo de arena aberta. O design é ideal para o gramado, que recebe luz solar e ventilação abundantes. O contraponto é o conforto do público e a atmosfera do jogo. Com todos os assentos expostos, os espectadores ficam à mercê do clima, e a ausência de um teto para refletir o som faz com que a energia da torcida se dissipe. No extremo oposto está o estádio de Dallas, uma arena totalmente fechada com teto retrátil. O ambiente climatizado oferece conforto máximo para jogadores e público, mas a um custo energético massivo. Estádios deste tipo, segundo Jansen, “consomem enormes quantidades de energia”, tornando-se controversos. Além disso, o ruído pode ser excessivo, exigindo painéis de absorção acústica para equilibrar a intensidade e a clareza do som.

A Geometria do Jogo

As diferenças mais profundas, no entanto, estão na geometria fundamental de um estádio de futebol americano versus um de soccer. Jansen usa o estádio da Cidade do México como um modelo construído especificamente para o futebol. A principal distinção está na inclinação das arquibancadas. Como o futebol americano tem linhas laterais repletas de jogadores e equipamentos, os assentos precisam começar mais altos e recuados. No soccer, as arquibancadas podem ser mais íngremes e próximas do campo, criando linhas de visão mais diretas e uma atmosfera mais íntima. Outra diferença é o formato: estádios de futebol americano frequentemente deixam os cantos abertos, maximizando assentos nas laterais, enquanto estádios de soccer buscam o formato de uma “tigela fechada” (enclosed bowl), que envolve a ação e intensifica a experiência. Essa especialização, no entanto, pode tornar a arena um “negócio menos lucrativo”, por ser menos versátil para outros tipos de eventos.

O estádio ideal, na visão de Jansen, seria um híbrido. Ele combinaria as arquibancadas íngremes e a proximidade de um estádio de soccer tradicional com a flexibilidade de um teto retrátil. Seria uma estrutura integrada ao tecido urbano, e não isolada em um mar de estacionamentos de concreto que geram ilhas de calor. Este ideal não será a realidade da Copa de 2026. O torneio será uma vitrine de adaptação, onde a experiência do maior evento esportivo do mundo será moldada não pela busca da perfeição, mas pela lógica da infraestrutura disponível.

Fonte · Brazil Valley | Sports