Em um subúrbio residencial de Tóquio, onde a densidade urbana fragmenta a paisagem, um novo projeto arquitetônico propõe uma solução elegante para a evolução das necessidades de uma família. O escritório Yohei Ikai / icai architects projetou a "Slur House", um anexo de 30 metros quadrados construído ao lado de uma residência existente de 15 anos. O projeto estabelece uma nova dinâmica entre as duas construções, mantendo a proximidade visual e espacial.

A inspiração, segundo reportagem da revista Designboom, vem de um conceito musical. O termo "slur" (ligadura, em português) refere-se a notas distintas tocadas de maneira suave e contínua. A tese do projeto é precisamente esta: criar uma arquitetura que funciona como uma ponte fluida entre o antigo e o novo, oferecendo uma resposta sofisticada para o dilema de garantir independência aos filhos que crescem sem perder a conexão familiar.

O diálogo da luz e da forma

Para materializar o conceito, a nova estrutura espelha três características da casa original: a planta quase quadrada, o telhado pontiagudo e as paredes externas brancas. No entanto, em vez de uma simples réplica, o anexo é posicionado com um intervalo calculado entre os dois edifícios. Este espaço vazio é o elemento central do projeto. O cume do telhado do anexo é deslocado em direção à casa principal, criando um pé-direito mais alto e uma janela elevada estrategicamente posicionada.

Essa janela não capta luz solar direta. Sua função é receber a luz refletida pela grande parede branca da casa original, que antes funcionava como uma empena cega. A arquitetura transforma uma fachada secundária em uma superfície refletora, que ilumina o interior do anexo com uma luz suave e indireta ao longo da manhã. O vão entre as construções deixa de ser um resíduo espacial e torna-se um dispositivo arquitetônico que integra luz e forma, conectando os volumes de maneira imaterial.

Continuidade nos detalhes

A coerência do projeto se estende ao interior. O espaço compacto é organizado por dois mezaninos e colunas independentes, criando diferentes níveis e percursos. Uma sequência de janelas voltadas para o jardim ao sul acompanha as atividades dos moradores, culminando na janela alta que se abre para a casa principal. Para unificar essas aberturas de alturas e dimensões variadas, os arquitetos colaboraram com o estúdio de design têxtil some/to na criação de cortinas em degradê, que reforçam visualmente a ideia de "ligadura".

O mesmo princípio de continuidade material é visto no mobiliário. A mesa e a escrivaninha foram desenvolvidas em colaboração com os clientes, que montaram e pintaram as peças em um projeto "faça você mesmo". Utilizando o mesmo compensado de lauan do teto, os móveis se integram perfeitamente ao espaço. O projeto demonstra que, mesmo em pequena escala, é possível criar uma arquitetura rica em significado, onde o espaço entre os edifícios pode ser tão eloquente quanto os próprios edifícios.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom