A operação de serviços financeiros do Magazine Luiza deixou de ser um anexo de conveniência para se tornar um motor estrutural de rentabilidade. Em entrevista recente, Fábio Murakami, executivo de produtos do ecossistema, delineou a transição da companhia de uma varejista com parceiros de crédito para uma operadora financeira de infraestrutura própria. O movimento mais recente e definidor dessa estratégia foi a obtenção de uma licença do Banco Central para atuar como financeira. A mudança regulatória permite que a empresa unifique um portfólio historicamente fragmentado — que inclui cartões, crediário e contas digitais — sob uma única estrutura institucional, centralizando a jornada de um cliente que já transaciona bilhões de reais anualmente nas plataformas do grupo.

A infraestrutura de crédito e expansão inorgânica

A espinha dorsal do crédito no Magalu ainda repousa em parcerias históricas, mas a captura de margem na base da pirâmide tem exigido novas teses. Murakami detalha que a joint venture LuizaCred, mantida com o Itaú desde 2001, sustenta uma carteira de crédito de R$ 20 bilhões distribuída em 6 milhões de cartões. Apenas no último ano, essa operação de cartões reportou um lucro líquido na casa dos R$ 300 milhões. Simultaneamente, a vertical de adquirência proprietária (PSP) movimentou mais de R$ 15 bilhões. No entanto, o vetor de crescimento mais acelerado atualmente não está no plástico, mas no tradicional carnê (CDC). Com uma carteira de R$ 2 bilhões, o crediário digital avança ao capturar uma demanda reprimida de consumidores que evitam comprometer o limite do cartão de crédito ou que ainda constroem seu histórico financeiro.

Para orquestrar esse volume, a companhia combinou desenvolvimento interno com aquisições pontuais de tecnologia e licenças. A compra da Hub Fintech trouxe para dentro de casa uma licença de instituição de pagamento, o core banking e a arquitetura de contas digitais. Já a aquisição da Bit55 internalizou o processamento de cartões, estrutura que hoje roda as operações de carnê. Para contexto, a BrazilValley aponta que o movimento de internalizar o motor financeiro reflete uma maturidade do setor de varejo, onde depender exclusivamente de infraestrutura de banking as a service (BaaS) de terceiros passa a corroer as margens em operações de altíssima escala.

O ecossistema digital e a ocupação do varejo físico

A infraestrutura financeira serve como base para inovações diretas na interface de vendas. A companhia recentemente lançou uma operação de comércio conversacional de ponta a ponta via WhatsApp, onde a escolha do produto e o pagamento ocorrem sem que o usuário saia do aplicativo. A interface desse canal é ancorada na "Lu", a influenciadora digital da marca que, segundo Murakami, acumula 30 milhões de seguidores, superando propriedades intelectuais globais como a Barbie.

Paralelamente à expansão digital, o Magazine Luiza recalibra o papel de seus ativos físicos. As 1.300 lojas da rede já operam como centros de distribuição e pontos de coleta para os sellers do marketplace. Agora, a companhia investe na materialização do seu ecossistema com a "Galeria Magalu", localizada no antigo espaço da Livraria Cultura, na Avenida Paulista. O complexo físico unificará as marcas do grupo — como Época Cosméticos, Kabum, Netshoes e Estante Virtual —, sinalizando uma aposta na experiência presencial como ferramenta de consolidação de marca no cenário pós-pandemia.

A arquitetura detalhada por Murakami ilustra que o embedded finance no varejo transcende a simples oferta de meios de pagamento. Trata-se de um mecanismo de defesa de margem e orquestração de conversão. Ao subsidiar parcelamentos em até 21 vezes para detentores do cartão proprietário, a empresa reduz o custo de aquisição de clientes e blinda sua base contra marketplaces concorrentes. O desafio do Magalu, agora operando sob a chancela de financeira, será provar que a unificação de seus múltiplos braços de crédito pode gerar eficiência operacional sem expor o balanço da varejista a um risco de inadimplência desproporcional.

Fonte · Brazil Valley | Fintech