“Seria esta a certidão de óbito da arquitetura?”. A pergunta, feita por um leitor no portal especializado Dezeen, não é retórica. É a reação visceral a um projeto de €240 milhões que pretende ser o novo marco de Roterdã, nos Países Baixos. Batizado de Rotterdam Rocks!, o complexo desenhado pelo aclamado escritório MVRDV se assemelha a um amontoado de rochas artificiais, cobertas por terraços e uma vegetação que parece mais decorativa do que funcional.
O projeto venceu um concurso para ser um “novo prodígio do mundo”, mas a recepção pública sugere o contrário. As críticas coletadas pela publicação vão de “horror” e “pesadelo terrível” a comparações pouco lisonjeiras, como algo que o ogro Shrek “vomitaria”. A zombaria ecoa o fracasso de projetos similares, como o Marble Arch Mound de Londres, que tentou e falhou em criar uma colina artificial no centro da cidade. A questão fundamental parece ser a dissonância entre a intenção e a forma. A ambição de criar um ícone parece ter atropelado a sobriedade e o bom senso, resultando em uma proposta que muitos consideram um embaraço para uma cidade com uma rica tradição arquitetônica.
A natureza como fantasia
A controvérsia em torno do Rotterdam Rocks! transcende o debate estético. Ela toca no nervo exposto da arquitetura contemporânea: a sustentabilidade como performance. Críticos apontam que não há nada de “verde” na monstruosidade de concreto, cuja manutenção e pegada de carbono real são convenientemente ignoradas nos renderings idílicos. Como resumiu um comentarista, “a natureza de verdade faz isso melhor”.
O projeto do MVRDV torna-se, assim, um sintoma. Ele representa uma arquitetura que, na ânsia de se tornar um espetáculo instagramável, veste uma fantasia ecológica. A vegetação é aplicada como um adereço, uma tentativa de absolver a estrutura massiva que a sustenta. A discussão, portanto, não é apenas sobre um edifício em Roterdã. É sobre o que pedimos de nossas cidades e de quem as projeta: marcos grandiosos a qualquer custo ou ambientes que respondam genuinamente aos desafios de seu tempo? O projeto holandês, por enquanto, parece ter escolhido o primeiro caminho, para o desespero de seus futuros habitantes.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen





