O Museu do Acionismo de Viena (WAM) se prepara para inaugurar em setembro uma retrospectiva que testa os limites da curadoria institucional: uma mostra dedicada a Otto Muehl, um dos fundadores do movimento, mas também um criminoso condenado. Muehl, que morreu em 2013, cumpriu sete anos de prisão por estupro e abuso sexual de menores em uma comuna que liderou nos anos 70 e 80.

A controvérsia, detalhada em reportagens do jornal austríaco Der Standard e ecoada pela ARTnews, não reside apenas na natureza transgressora da obra de Muehl — que utilizava sangue e excrementos —, mas na própria decisão de celebrar um artista cuja biografia está manchada por crimes hediondos. A questão que se impõe é se é possível, ou mesmo desejável, separar a produção artística de seu autor quando os atos deste envolvem a vitimização de outras pessoas, muitas das quais ainda vivas.

O dilema da "arte de perpetrador"

Para críticos e vítimas da comuna de Muehl, a resposta é um sonoro não. O argumento central é que a exposição, intitulada “Otto Muehl: Arte no Precipício”, inevitavelmente legitima e pode até mesmo impulsionar o mercado para a obra do artista, o que seria uma afronta moral. O Der Standard questiona a premissa de que se pode dissociar “a vida do líder do culto e sua arte”, especialmente quando algumas obras foram produzidas no contexto dos abusos.

A crítica aponta para um conceito espinhoso: a “arte de perpetrador”. Ao dar palco a Muehl, o museu corre o risco de ser visto não como um espaço de reflexão crítica, mas como um agente que reabilita a imagem de um criminoso em nome do valor histórico-artístico. A discussão transcende o gosto e entra no campo da responsabilidade ética de uma instituição cultural.

A defesa institucional

O WAM, por sua vez, reconhece o projeto como “desafiador”. Em sua defesa, a instituição afirma que a curadoria foi criteriosa, excluindo trabalhos que retratam abusos ou que utilizaram vítimas como modelos em cenas de violência. O museu também alega ter obtido permissão dos herdeiros de pessoas retratadas, uma afirmação contestada pelo jornal local.

Klaus Albrecht Schröder, diretor do museu, joga a responsabilidade para o público, afirmando esperar que os visitantes se sintam capacitados “para formar seus próprios julgamentos”. A estratégia parece ser enquadrar a exposição como um exercício de maturidade intelectual, onde o espectador deve ser o juiz final. É uma posição que busca neutralidade, mas que para muitos soa como uma perigosa omissão.

O caso Muehl em Viena não é um debate abstrato. Ele força o mundo da arte a confrontar, de forma concreta e desconfortável, como o cânone histórico deve tratar biografias indefensáveis. A questão que paira sobre a mostra não é apenas sobre o passado de um artista, mas sobre o futuro dos critérios que definem o que merece ser lembrado e celebrado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews