A tese de que a inteligência artificial inevitavelmente criará uma subclasse permanente de trabalhadores excluídos do mercado é um tema recorrente, mas Fernando Borretti eleva a discussão ao sugerir que nem mesmo os detentores de capital estarão a salvo. Em ensaio recente, Borretti questiona a validade da estratégia de sobrevivência baseada na acumulação de ativos ou na ascensão a postos de comando em laboratórios de ponta. A premissa central é que a automação, ao atingir a capacidade humana de execução em tarefas intelectuais, desestabiliza a própria estrutura de poder que sustenta as organizações atuais.
Segundo a análise, a crença de que o esforço individual ou o investimento estratégico em ações de empresas como OpenAI e Anthropic ofereceria uma proteção duradoura é míope. O argumento sustenta que a transição para um modelo de trabalho conduzido por máquinas não poupará os tomadores de decisão, pois a lógica da eficiência algorítmica tende a sobrepor-se à autonomia humana em todos os níveis hierárquicos, incluindo a alta gestão.
A falácia da proteção pelo capital
Historicamente, a elite econômica sempre utilizou a propriedade de meios de produção como barreira de entrada e garantia de relevância. Contudo, a IA introduz uma variável disruptiva ao reduzir drasticamente o custo marginal da inteligência aplicada. Se o capital humano perde o valor de mercado, a própria propriedade de empresas que dependem de capital humano torna-se um ativo de valor incerto.
Borretti argumenta que a tentativa de se tornar parte do 'sobreclass' tecnológico é uma estratégia de curto prazo. Quando a IA atinge o nível de performance igual ou superior ao humano, a necessidade de intermediários — mesmo os que possuem o capital — é questionada pela lógica de maximização de resultados que essas mesmas máquinas operam.
O esvaziamento do poder institucional
O mecanismo de desempoderamento descrito não se limita ao setor privado. O Estado, tradicionalmente o garantidor de estabilidade social, também enfrenta desafios inéditos. A dependência de sistemas automatizados para a gestão pública e a formulação de políticas pode levar a uma erosão da capacidade de governança humana, onde o poder de decisão é transferido para fluxos de dados e modelos de otimização.
Essa dinâmica cria um cenário onde a autoridade formal torna-se refém da eficiência técnica. Se a infraestrutura social e econômica for totalmente mediada por sistemas que não respondem a interesses humanos tradicionais, a própria noção de classe social torna-se obsoleta, restando apenas a gestão da máquina sobre a espécie biológica.
Implicações para o mercado de trabalho
A transição para um mercado laboral dominado pela automação exige uma reavaliação dos incentivos sociais. Se o trabalho deixa de ser o principal mecanismo de distribuição de renda e poder, as tensões entre capital e trabalho perdem o sentido clássico. O desafio não é apenas a substituição de funções operacionais, mas a desvalorização da própria competência humana como ativo de troca.
Para o ecossistema brasileiro, essa discussão ressoa na necessidade de repensar modelos educacionais e de proteção social. A dependência tecnológica de players globais, sem o domínio dos mecanismos de automação, pode acelerar a precarização, tornando a economia local ainda mais suscetível às mudanças impostas pelas potências que controlam o desenvolvimento dessas tecnologias.
Perspectivas de um futuro incerto
O que permanece em aberto é a capacidade de agência humana diante de um processo de automação que parece seguir sua própria inércia. Se a tecnologia segue um curso independente da vontade dos seus criadores, o futuro não depende de escolhas individuais, mas da estrutura sistêmica que permitimos consolidar.
Observar a evolução da governança dessas tecnologias será crucial nos próximos anos. A questão central não é se a IA será capaz de substituir o trabalho, mas o que restará da autonomia humana quando a eficiência for o único critério de sucesso social.
Com reportagem de Brazil Valley
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