A Dynamic Creatures, startup cofundada pelo ex-diretor de estratégia da Boston Dynamics, Marc Theermann, saiu do modo stealth com uma proposta inusitada. A empresa, um spinout da gigante da robótica, pretende construir robôs com apelo emocional, projetados para interação humana em vez de tarefas industriais. Segundo reportagem da revista Fortune, os primeiros protótipos incluem uma poodle lilás chamada Danielle e um troll chamado Hugo.

A tese da Dynamic Creatures é que, para serem bem-vindos em ambientes sociais como parques temáticos ou eventos, os robôs precisam ser mais parecidos com personagens de desenho animado do que com máquinas de ficção científica. O movimento representa uma bifurcação na trajetória da Boston Dynamics — conhecida por seus robôs quadrúpedes e humanoides com aplicações industriais —, explorando agora o lucrativo mercado do entretenimento e da propriedade intelectual.

Do chão de fábrica ao palco

Ainda na Boston Dynamics, Theermann notou uma demanda crescente e não atendida por robôs em eventos de grande porte, de shows da Katy Perry e The Rolling Stones a aparições na Copa do Mundo da FIFA. Havia um “puxão do mercado”, segundo ele, por interações mais lúdicas com a tecnologia. A Dynamic Creatures nasce para atender a essa demanda específica: ser a empresa que detentores de propriedade intelectual — como estúdios e parques temáticos — procuram para dar vida a seus personagens.

A inspiração vem da união de dois mundos: a mobilidade e autonomia dos robôs da Boston Dynamics com a arte e o apelo dos animatrônicos do Creature Shop de Jim Henson, criador dos Muppets. A ideia é criar personagens móveis e interativos que possam dançar, interagir com o público e performar, superando os animatrônicos estáticos e de programação fixa que hoje habitam os parques.

O vale da estranheza como fronteira

A estratégia da startup é se afastar deliberadamente do fotorrealismo. Enquanto mercados como o chinês avançam com humanoides cada vez mais parecidos com pessoas, a Dynamic Creatures aposta no “cartunesco” para evitar o “vale da estranheza” (uncanny valley) — a sensação de repulsa que figuras quase humanas podem causar. “Você não verá um robô fotorrealista de nós, provavelmente nunca”, afirmou Theermann à Fortune.

O timing é estratégico. O mercado global de robôs humanoides, segundo estimativas do J.P. Morgan, pode saltar de US$ 2 bilhões em 2025 para US$ 300 bilhões até 2035. Os investidores estão atentos: o setor de robótica e IA física atraiu um recorde de US$ 18,6 bilhões em investimentos apenas no segundo trimestre de 2026, de acordo com dados da PitchBook, sinalizando que as barreiras para criar uma empresa de robótica estão diminuindo.

A aposta da Dynamic Creatures é contraintuitiva em um ecossistema focado em automação e eficiência industrial. No entanto, ela sugere que a próxima fronteira da robótica pode não ser apenas sobre o que os robôs fazem, mas sobre como eles nos fazem sentir. Ao focar na forma e na emoção, a startup testa a tese de que a aceitação em massa da tecnologia passará, primeiro, pela capacidade de criar laços afetivos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune