Um estudo publicado por especialistas ligados ao Banco da Espanha recomenda a criação de um comitê pan-europeu dedicado à transparência e prestação de contas dos bancos centrais do continente. A proposta é um dos principais resultados de uma análise comparativa de 35 autoridades monetárias e de supervisão, que buscou entender como a abertura institucional impacta a legitimidade e a confiança pública.

A recomendação chega em um momento em que a autonomia e as decisões de bancos centrais ao redor do mundo enfrentam escrutínio crescente. A tese do relatório é que a transparência não pode ser apenas uma formalidade legal; deve ser um pilar estratégico para fortalecer a credibilidade dessas instituições, especialmente em um cenário de políticas monetárias complexas e polarização política.

Além da obrigação legal

O trabalho, elaborado por Jordi Romeu Granados, do Banco da Espanha, e Mihai-Vasile Cîrja, do banco central romeno, revela que a maioria das instituições já vai além dos requisitos mínimos. Elas publicam materiais adicionais, usam canais digitais para se comunicar com diferentes públicos e promovem a educação financeira. A prestação de contas, ou accountability, opera por meio de uma rede complexa que envolve parlamentos, auditorias e canais de feedback da sociedade.

Contudo, o progresso é desigual. O estudo aponta áreas críticas onde a evolução é lenta, como a avaliação da eficácia da comunicação e, crucialmente, a transparência dos processos internos que já utilizam inteligência artificial. A questão não é apenas divulgar decisões, mas explicar como elas são tomadas, sobretudo quando algoritmos participam do processo.

Um fórum, não um tribunal

O comitê proposto funcionaria dentro do Sistema Europeu de Bancos Centrais (SEBC), com participação do Mecanismo Único de Supervisão (MUS). A ideia não é criar um órgão punitivo, mas um fórum estruturado para o intercâmbio de boas práticas, coordenação de iniciativas e desenvolvimento de conhecimento especializado em governança. Indiretamente, a estrutura incentivaria os membros a refletirem sobre seus próprios modelos internos.

Junto à criação do comitê, os especialistas recomendam o estabelecimento de princípios mínimos de transparência para o uso de IA na supervisão bancária e nas operações de política monetária. A medida endereça uma fronteira tecnológica que, se não for bem gerenciada, pode transformar a tomada de decisão em uma caixa-preta ainda mais opaca para o público e para os próprios legisladores.

A proposta espanhola é um sintoma da pressão por uma nova era na governança monetária. O modelo do banqueiro central que opera de forma isolada e hermética parece cada vez menos sustentável. O debate que se desenha não é sobre a necessidade de mais transparência, mas sobre como implementá-la sem ferir a independência técnica essencial para a estabilidade econômica.

Com reportagem da Forbes España

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