O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) deu o passo mais inusitado da pré-campanha eleitoral brasileira até agora. Em um vídeo publicado em suas redes sociais, ele utiliza inteligência artificial para recriar digitalmente seu pai e seu irmão, ambos falecidos recentemente. No diálogo sintético, os parentes o incentivam a disputar o governo de Minas Gerais, uma decisão que o senador vinha adiando publicamente.

O movimento, que segundo aliados precede o anúncio oficial da candidatura, transcende a mera comunicação política. Ao usar a imagem de entes queridos que não podem mais consentir, Cleitinho transforma o luto pessoal em capital político e inaugura um debate complexo sobre os limites éticos da IA generativa no marketing eleitoral. A peça não é apenas um anúncio; é um teste de fronteira para a tecnologia e para a própria legislação.

O deepfake como ferramenta emocional

A tecnologia empregada, popularmente conhecida como deepfake, é frequentemente associada à desinformação e a fraudes. No caso de Cleitinho, o uso é diferente: não se trata de criar uma mentira, mas de construir uma verdade emocionalmente potente. A cena, que mostra o pai e o irmão oferecendo apoio do além, apela diretamente a valores de família e fé, pilares da comunicação do senador.

A leitura aqui é que a estratégia busca criar uma narrativa de chamado, quase um desígnio. Ao receber a "bênção" de seus familiares falecidos, Cleitinho se posiciona acima da política tradicional, como alguém que responde a um propósito maior. É uma jogada de alto risco que, se bem-sucedida junto a seu eleitorado, pode se provar extremamente eficaz, contornando a necessidade de debates programáticos em favor de uma conexão puramente sentimental.

Um desafio para a regulação

O episódio expõe um vácuo na regulação eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já demonstrou preocupação com o uso de IA para disseminar notícias falsas, mas o vídeo de Cleitinho levanta outra questão: o da manipulação emocional consentida. Não há falsidade factual, mas sim uma simulação que explora a fronteira entre o real e o artificial para obter ganhos políticos.

Enquanto aliados e familiares apoiaram a publicação, o caso força uma discussão que o Brasil ainda não teve de forma aprofundada. Qual o limite para o uso de IA generativa em campanhas? A recriação de pessoas falecidas para endossos póstumos deveria ser permitida? A resposta não é simples e coloca em xeque a capacidade da legislação de acompanhar a velocidade da inovação tecnológica.

O vídeo de Cleitinho, portanto, faz mais do que sinalizar uma candidatura. Ele força o sistema político e a sociedade a confrontar as implicações de um futuro onde a própria realidade pode ser editada para fins eleitorais. A forma como o eleitorado e as autoridades reagirão a este precedente pode definir as regras do jogo para as próximas eleições.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney