Uma proposta aparentemente burocrática e inócua do Escritório de Gestão e Orçamento (OMB) da Casa Branca pode se tornar a mais nova frente na guerra cultural que a administração Trump trava contra a ciência. O texto sugere mudanças nas regras de concessão de verbas federais para pesquisa, conferindo a nomeados políticos um poder de supervisão inédito sobre um processo historicamente guiado pelo mérito técnico e pela revisão por pares.

Segundo reportagem do The Verge, a medida ameaça diretamente o futuro da pesquisa de ponta nos Estados Unidos. Projetos de longo prazo e de natureza fundamental — como a busca por compostos orgânicos em Marte ou a observação das primeiras galáxias do universo com telescópios espaciais — dependem desse fluxo de capital. A tese aqui é que, sob o pretexto de combater a chamada "ciência woke", o que se desenha é a politização de um dos pilares da inovação e do conhecimento.

Burocracia como arma

O sistema de financiamento à ciência nos EUA, assim como em muitas democracias, foi desenhado para isolar as decisões técnicas das pressões políticas do momento. Pesquisadores submetem projetos que são avaliados por outros cientistas da mesma área (revisão por pares), e as agências de fomento, como a NASA ou a National Science Foundation, distribuem os recursos com base nesse mérito. A proposta do OMB insere uma camada de supervisão política nesse fluxo, abrindo a porta para que decisões sejam baseadas em alinhamento ideológico, e não em rigor científico.

A manobra dá contornos práticos a um discurso que busca deslegitimar campos inteiros do saber sob rótulos politizados. Ao dar a um indicado político o poder de questionar ou vetar um grant, a administração pode, na prática, sufocar linhas de pesquisa que não se alinhem com sua agenda. O volume extraordinário de comentários públicos que a proposta recebeu — muito acima do normal para uma regra do tipo — sinaliza que a comunidade científica percebeu o risco e se mobiliza em oposição.

O precedente perigoso

As implicações de tal mudança transcendem a administração atual. Uma vez estabelecido, o precedente pode ser usado por qualquer governo futuro para direcionar verbas a projetos de estimação ou cortar financiamento de áreas incômodas, como estudos climáticos ou de saúde pública. A autonomia que permitiu à ciência americana liderar o mundo por décadas ficaria permanentemente comprometida, gerando uma incerteza que é tóxica para projetos que levam anos ou décadas para maturar.

Embora o episódio seja americano, a ressonância para o Brasil é imediata. O ecossistema de ciência e tecnologia brasileiro conhece bem os efeitos da instabilidade e dos cortes de verbas em órgãos como Capes e CNPq, muitas vezes justificados por vieses políticos. O caso americano serve como um alerta sobre a fragilidade das instituições de fomento à pesquisa quando o poder político decide intervir diretamente em seu mérito. A batalha em Washington não é apenas sobre o espaço; é sobre a própria definição de como uma sociedade moderna produz conhecimento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Verge