Donald Trump divulgou em sua rede social as primeiras imagens do interior de um controverso salão de festas que pretende anexar à Casa Branca. As renderizações exibem um espaço opulento, com corredores amplos, candelabros e uma profusão de detalhes em dourado, evocando mais o barroco francês ou a suntuosidade de Moscou do que a arquitetura neoclássica de Washington, D.C.

Para especialistas consultados pela revista Fast Company, a escolha estilística está longe de ser apenas uma questão de gosto pessoal. A crítica central é que o projeto abandona a simbologia de uma república democrática para abraçar a estética de monarquias absolutistas e regimes autoritários, comunicando uma visão de poder que colide diretamente com os ideais americanos.

Uma estética de autocracia

As comparações feitas por arquitetos e designers de interiores são diretas. Annie Elliott, designer de Washington, descreveu o projeto como uma “versão esbranquiçada de Versalhes”, palácio do rei francês Luís XIV. Outros paralelos apontam para a extravagância do Grande Palácio do Kremlin, em Moscou. A leitura é que o design não busca inspiração, mas sim imitação.

Jorge Salgado, cofundador do escritório Pelletier Salgado Architects, argumenta que a arquitetura da Casa Branca é deliberadamente contida para refletir os ideais da república. A força do símbolo reside justamente no fato de que o líder de uma nação poderosa habita um edifício relativamente modesto. O projeto de Trump, ao contrário, é descrito como um “pastiche” saturado de símbolos europeus de poder e riqueza, concebido para projetar força bruta.

A psicologia de Las Vegas

Além da simbologia política, há uma análise sobre a eficácia do design em comunicar luxo. A designer Sarah Boardman nota que a proposta tem uma “qualidade aspiracional” que lembra a psicologia arquitetônica de Las Vegas. Resorts na cidade emprestam símbolos reconhecíveis de grandeza europeia para criar uma sensação instantânea de excepcionalidade no visitante.

Embora seja uma psicologia de design eficaz, Boardman questiona seu mérito como uma ideia arquitetônica americana para o século 21. Em vez de inovar, o projeto recorre a um repertório familiar de opulência. A controvérsia estética se soma à jurídica — a obra avança após uma decisão processual da Suprema Corte — e à financeira, com custos estimados que já chegam a US$ 600 milhões, segundo o The Washington Post.

A discussão, portanto, transcende o debate sobre decoração. O que está em jogo é a imagem que o principal edifício cívico dos Estados Unidos deve projetar: a contenção de uma democracia ou a grandiosidade de um império.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company