Canais sinuosos, lanternas vermelhas refletidas na água, telhados curvos de uma China imperial. Ao fundo, a silhueta imponente da Grande Muralha. A Cidade da Água de Gubei, em Pequim, parece uma vila ancestral perfeitamente preservada, um portal para outra era. Mas não é. Trata-se de um projeto comercial inaugurado em 2014, um parque temático meticulosamente desenhado para evocar o charme das cidades aquáticas do sul do país, convenientemente localizado a poucas horas da capital, no norte.

Este fenômeno tem um nome: fanggu, ou a imitação do antigo. É a mais recente e ambiciosa estratégia da China para dominar a indústria do turismo. Em vez de depender apenas de seu vasto e disperso patrimônio histórico, o país decidiu fabricar novas versões dele — mais limpas, mais acessíveis e, crucialmente, mais lucrativas. A lógica é puramente de mercado: por que forçar um turista a cruzar o país para ver a Grande Muralha e as vilas de Jiangnan, quando se pode ter uma versão curada de ambos no mesmo fim de semana?

O passado como produto

A estratégia vai além de simples réplicas. São ecossistemas de entretenimento completos. Em Xi'an, o complexo Datang Everbright recria a opulência da dinastia Tang com espetáculos e gastronomia. Em Zhengzhou, o parque Unique Henan: Land of Dramas oferece uma "experiência cultural imersiva" que já atraiu mais de 58 milhões de visitantes desde 2021. O objetivo, segundo seus operadores, é empacotar a cultura local em um formato que seja ao mesmo tempo educativo e altamente instagramável.

O modelo de negócio é inegavelmente eficaz. Estes complexos resolvem um problema logístico para o turismo de massa, condensando a identidade cultural de uma nação continental em destinos de fácil consumo. Eles oferecem uma versão idealizada da história, livre das complexidades e do desgaste do tempo. O passado deixa de ser um artefato a ser preservado para se tornar uma propriedade intelectual, um produto a ser escalado e otimizado para a máxima satisfação do cliente.

A autenticidade em jogo

O sucesso desses empreendimentos levanta, contudo, uma questão mais profunda sobre a relação entre cultura e comércio. Ao construir um passado sob medida, a China não está apenas criando atrações turísticas; está moldando ativamente sua própria narrativa histórica para consumo interno e externo. A história que emerge desses parques é uma versão saneada, espetacular e descontextualizada, onde a estética prevalece sobre a veracidade.

O debate não é se os turistas são enganados — a natureza comercial desses locais é transparente. A questão central é o que se perde quando a experiência simulada se torna mais desejável que a realidade. A Cidade da Água de Gubei, por exemplo, imita uma arquitetura que não pertence àquela região, criando um pastiche cultural em nome da conveniência. É a Disneyficação da história em escala nacional, um processo que prioriza a sensação de estar em um lugar sobre a essência do que aquele lugar de fato foi.

Enquanto milhões de visitantes posam para fotos em cenários impecáveis, a linha entre o que foi e o que poderia ter sido se dissolve. A pergunta que fica não é se a história vendida ali é real, mas se, para o turista do século 21, essa distinção ainda importa.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka