A economia chinesa cresceu apenas 4,3% no segundo trimestre, o ritmo mais lento desde o fim da pandemia e abaixo da meta de Pequim. Debaixo do capô, no entanto, os números revelam uma história mais complexa: a de uma economia que opera em duas velocidades distintas. De um lado, um consumidor doméstico hesitante, com as vendas no varejo crescendo meros 1,0% em junho. Do outro, uma máquina exportadora robusta, cujas vendas em dólar saltaram 27%, e uma produção industrial que avançou 5,3%.

O diagnóstico, segundo uma análise da revista Fortune, aponta para uma dissociação clara. Um motor de manufatura e exportação, alimentando a demanda global por eletrônicos e semicondutores, funciona a todo vapor. Enquanto isso, a economia interna enfrenta uma tempestade perfeita: vendas fracas, o estouro de uma bolha imobiliária e o que os chineses chamam de “involução” — uma competição feroz que comprime as margens a níveis insustentáveis. “Há uma resiliência notável na manufatura e nas exportações, e uma suavidade no consumo e no investimento em ativos fixos”, afirmou Carol Liao, presidente da Boston Consulting Group para a Grande China.

O consumidor em retração

A chave para entender a fraqueza do consumo está na crise do setor imobiliário. Com a queda no valor dos imóveis, o patrimônio líquido das famílias — que na China está majoritariamente concentrado em propriedades — erodiu, minando a confiança para gastar. “Trata-se da disposição para gastar, não da capacidade”, escreveu William Bratton, do BNP Paribas, em nota recente. A resposta de Pequim não tem sido a de estímulos diretos, como transferências de renda, uma prática que o presidente Xi Jinping já criticou como “assistencialismo” que “alimenta preguiçosos”.

Em vez de cheques, o governo prefere “investir nas pessoas”, canalizando recursos para capital humano através de subsídios para educação infantil, cuidados com idosos e fortalecimento da rede de seguridade social. A estratégia é de longo prazo, mas de efeito lento sobre a demanda imediata. Mesmo o recém-lançado plano quinquenal para o consumo, que visa vendas anuais de quase US$ 9 trilhões até 2030, projeta um crescimento anual de 3,7% — bem abaixo do ritmo de 5,0% registrado na primeira metade da década. É um reconhecimento tácito de que a recuperação do lado da demanda será gradual.

A fábrica e os serviços aceleram

Até mesmo dentro do consumo há duas velocidades. A venda de bens, especialmente automóveis, despencou 23,2% em um mês. A combinação do fim de subsídios para veículos elétricos e uma guerra de preços brutal levou muitos consumidores a adiar a compra, na expectativa de valores ainda mais baixos. Em contraste, o consumo de serviços e de produtos ligados a “estilo de vida” — como cuidados com pets e artigos para atividades ao ar livre — segue aquecido. O consumidor busca o melhor preço para o básico, mas ainda está disposto a pagar por categorias que “adicionam cor à vida”, segundo Liao.

O grande motor, contudo, é o setor externo, que também passou por uma transformação. A China não exporta mais apenas produtos de baixo valor agregado. O boom atual é impulsionado pela manufatura avançada, em especial componentes ligados à corrida global por inteligência artificial. O país domina a produção de chips de gerações anteriores, essenciais para PCs, consoles e eletrônicos, cuja oferta foi pressionada pela alta demanda para data centers. A valorização de 470% das ações da fabricante de chips CXMT em seu IPO recente em Xangai é um sintoma dessa nova fase.

Este cenário de competição interna extrema foi apelidado de “economia de academia de ginástica” (fitness center) pelo próprio governo chinês. A ideia é que o mercado doméstico funciona como um campo de treinamento de alta intensidade, forjando empresas resilientes e eficientes. Essa dinâmica se reflete na abordagem do país à IA: enquanto os EUA buscam construir “Ferraris a preço de Ferrari”, a China se especializa em “Mercedes a preço de Toyota” — ou seja, soluções de IA aplicada, de alta qualidade e custo competitivo. É uma estratégia que, embora dolorosa no curto prazo, pode estar preparando seus campeões nacionais para a próxima fase da competição global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune