A Ametic, principal associação da indústria digital na Espanha, reuniu poder público e iniciativa privada para debater o futuro das cidades. O diagnóstico que emergiu do encontro, organizado em parceria com o Banco Santander, é um paradoxo familiar a qualquer ecossistema de inovação, inclusive o brasileiro: a tecnologia para construir metrópoles mais eficientes e sustentáveis está madura e disponível, mas os principais gargalos continuam sendo analógicos.
Segundo reportagem da Forbes España, os debates no “Encontro da Economia Digital e das Telecomunicações” foram unânimes em apontar os verdadeiros entraves ao avanço das chamadas smart cities: a falta de solo urbanizável, a lentidão dos processos administrativos e as dificuldades de financiamento. A discussão transcende a geografia espanhola e serve de espelho para os desafios de urbanização no Brasil, onde a promessa tecnológica frequentemente colide com a realidade fundiária e burocrática.
O alicerce analógico
O debate expôs uma tensão fundamental: de um lado, a sofisticação das ferramentas digitais; de outro, a rigidez das estruturas físicas e regulatórias. Francisco de la Torre, prefeito de Málaga, detalhou como sua cidade utiliza “gêmeos digitais” para projetar novos bairros, simulando o impacto de 8.900 novas moradias e identificando riscos como áreas inundáveis antes mesmo do início das obras. A tecnologia permite “simular, prever e decidir antes de executar”, afirmou.
Contudo, para os representantes do setor privado, como Televes e Xiaomi, essa capacidade preditiva esbarra em obstáculos primários. O principal freio não é tecnológico, mas a ausência de um marco regulatório e de financiamento adaptado aos novos modelos de desenvolvimento imobiliário. A crítica é direta: de que adianta planejar uma cidade conectada em um ambiente virtual se a liberação de um alvará ou a destinação de um terreno leva anos? A demanda é por edifícios que já nasçam conectados e monitorados, gerando dados úteis para a gestão urbana, mas a base para isso — o solo e a aprovação — segue um rito secular.
O dado como ativo (e a governança como desafio)
A segunda camada da discussão abordou a transformação do dado municipal em um ativo econômico, especialmente para pequenas e médias empresas. Os participantes concordaram que a Espanha, assim como outras nações europeias, já possui infraestruturas robustas de dados, mas falta a cultura de enxergá-los como um recurso produtivo. O desafio é criar mecanismos de governança e interoperabilidade que permitam cruzar informações entre diferentes serviços públicos, gerando inteligência para o setor privado.
Nesse ponto, a padronização, defendida por entidades como a UNE (associação espanhola de normalização), surge como pilar para garantir qualidade, segurança e interoperabilidade. Natalia Ross, ex-assessora de inovação da administração Obama, complementou a visão ao defender a contratação pública como uma alavanca estratégica para fomentar startups de tecnologia, oferecendo-lhes contratos que sirvam como validação e primeira receita. A ideia é que o próprio governo, ao se tornar um cliente sofisticado, impulsione o ecossistema de inovação local.
A jornada terminou com o anúncio da criação de um novo Grupo de Trabalho de Urbanismo e Vivienda pela Ametic. A iniciativa sinaliza o reconhecimento de que a solução não virá de uma única tecnologia ou empresa, mas de uma nova forma de colaboração público-privada. O objetivo é co-criar plataformas para gerir o acesso a solo e usar inteligência artificial para acelerar trâmites. O recado é claro: para construir a cidade do futuro, é preciso primeiro destravar os gargalos do passado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





