O capital de risco para tecnologias climáticas, as chamadas ‘climate techs’, registrou seu semestre mais forte desde 2022, com US$ 26,1 bilhões em investimentos nos primeiros seis meses de 2026. A alta de 55% em relação ao ano anterior, no entanto, esconde uma mudança fundamental na tese dos investidores. O dinheiro não está seguindo uma agenda verde ampla, mas sim a necessidade pragmática de alimentar a fome aparentemente infinita da inteligência artificial por capacidade computacional.
Segundo dados do tracker de investimentos Currence, a força motriz por trás dos números é a corrida para construir a infraestrutura que sustenta a revolução da IA. A leitura é que a ‘climate tech’ se tornou, para muitos fundos, um veículo para investir em data centers e na geração de energia necessária para operá-los, redefinindo as fronteiras do próprio setor.
A nova face da ‘climate tech’
A mudança é tão drástica que a categoria de “ambiente construído” cresceu mais de oito vezes, ultrapassando “energia” como a principal vertical de investimento. Desenvolvedores de data centers de baixa emissão de carbono, que há um ano representavam apenas 3% do capital alocado, agora respondem por 34% do total. Duas rodadas gigantescas — os US$ 4,5 bilhões da DayOne e a série C de US$ 2 bilhões da Nscale — somam quase um quarto de todo o investimento no setor.
O movimento sugere que o mercado está reescrevendo o que se entende por ‘climate tech’. A própria Currence aponta que a definição agora abrange projetos que antes seriam vistos como puramente imobiliários ou de infraestrutura, desde que a sustentabilidade e o uso de energia limpa sejam centrais para o negócio. O argumento é que, na corrida pela energia, a capacidade de gerar energia limpa e constante se tornou uma vantagem competitiva decisiva, com os projetos sendo julgados tanto por sua “rota para a energia” quanto por seus racks e imóveis.
Concentração e consequências
Essa nova dinâmica está concentrando o capital. Enquanto o volume financeiro disparou, o número total de negócios caiu 25%. As dez maiores rodadas de captação foram responsáveis por 42% de todo o investimento, aproximando o venture capital para o clima de uma lógica de ‘infrastructure finance’, com cheques maiores e foco em projetos de longo prazo e alta intensidade de capital.
A contrapartida é que áreas tradicionalmente associadas ao combate às mudanças climáticas perdem espaço. O financiamento para startups focadas em carbono, por exemplo, caiu 61%, atingindo seu nível mais baixo desde 2020. Por outro lado, o apetite da IA impulsiona investimentos em tecnologias adjacentes, como startups de energia nuclear, que recebem cheques vultosos anos antes de gerarem o primeiro megawatt, e de observação da Terra, cujo financiamento triplicou para suprir a demanda por dados para treinar modelos.
O setor de ‘climate tech’ vive, portanto, um paradoxo. Recebe um influxo de capital sem precedentes, mas vê sua agenda cada vez mais ditada pelas necessidades da indústria de IA. A questão que fica no ar é se essa união pragmática servirá aos objetivos climáticos de longo prazo ou se apenas criará uma infraestrutura com verniz verde para a próxima revolução tecnológica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Register





