A tese de Travis Kalanick para seu segundo ato empresarial é construir um computador para o mundo físico. Em uma entrevista com Ben Horowitz da a16z, publicada em 22 de julho de 2026, o fundador da Uber articulou a visão por trás da Atoms, seu conglomerado industrial operado em modo furtivo por quase uma década. A estrutura conceitual, que ele chama de "computador baseado em átomos", reimagina operações industriais com base em paralelos da computação tradicional. Neste modelo, a manufatura é a CPU (que manipula átomos em vez de bits), o setor imobiliário é o armazenamento (que guarda átomos) e a logística é a rede (que move átomos). A partir dessa premissa, Kalanick montou um portfólio de empresas que inclui 'dark kitchens', robótica, transporte autônomo e mineração, unificadas sob uma única estrutura de capital. O objetivo final é tornar a preparação e entrega de uma refeição de qualidade tão eficiente que seu custo se aproxime ao de comprar os ingredientes no supermercado — essencialmente, fazer com a cozinha o que a Uber fez com o carro.

Do Fracasso à Furtividade

O caminho para a Atoms foi pavimentado por ressentimentos e lições da Uber. Kalanick narrou em detalhes o fracasso da rodada Série B com a Andreessen Horowitz em 2011. Segundo ele, após um processo de leilão que levou a um acordo com a a16z por uma avaliação pré-investimento de US$ 375 milhões, a firma recuou, oferecendo US$ 210 milhões. A quebra do acordo, afirmou Kalanick, o forçou a reiniciar o processo com outros investidores, minando sua credibilidade. Ben Horowitz, por sua vez, admitiu uma memória nebulosa do evento, citando uma possível complicação com o pool de opções para funcionários. Kalanick é categórico sobre o impacto: "aquilo não teria acontecido daquela forma se Ben ou Mark [Andreessen] estivessem no conselho", referindo-se à sua controversa saída da Uber em 2017.

Na sua avaliação, com a governança da a16z, a Uber seria hoje uma empresa "consideravelmente maior e mais importante", tendo vencido a entrega de comida — ele nota que a DoorDash detinha apenas 5% do mercado quando ele saiu — e se tornado líder em veículos autônomos. A experiência, marcada por uma avalanche de "150 artigos negativos por dia", o levou a uma decisão drástica para seu novo empreendimento: operar em modo furtivo ('stealth'). Após adquirir a Cloud Kitchens, uma startup de seis pessoas, Kalanick passou oito anos construindo a empresa longe dos holofotes. A operação em "modo difícil" envolvia recrutar e vender sem uma marca pública, chegando a usar nomes diferentes em cada mercado — como "Casinos" na América Latina e "Kitchen Valley" na Coreia — para dificultar a conexão dos pontos. O objetivo era focar na "correção interna" em vez da "validação externa", um antídoto para a cultura que, em sua visão, pode desviar uma empresa de seu rumo.

A Tese do Conglomerado Industrial

A Atoms começou com um problema aparentemente específico: cozinhas otimizadas para delivery. A empresa, originalmente chamada City Storage Systems, já nascia com a tese do "computador de alimentos". A estratégia para reduzir o custo da refeição entregue se apoia em três pilares: infraestrutura de real estate (centenas de galpões com dezenas de cozinhas), produção automatizada (robótica) e entregadores robóticos, que Kalanick chama de "burritos autônomos". Essa visão integrada o levou a expandir para além do setor de alimentos. Para ter controle sobre a tecnologia de autonomia, essencial para seus robôs e entregadores, ele adquiriu a Pronto, uma empresa de autonomia para mineração fundada por Anthony Levandowski, um de seus principais engenheiros na Uber. Hoje, a Atoms também atua na automação de minas de ouro na Amazônia e em outras localidades remotas.

Essa diversificação não foi acidental. A unificação das operações de alimentos, mineração e transporte sob a holding Atoms foi o que viabilizou o investimento da própria a16z. Horowitz conta que, ao ouvir sobre os diferentes negócios, sua reação foi querer investir "no casaco inteiro", não em cada relógio. Para Kalanick, a única restrição à imaginação de um fundador é a "capacidade de gestão", citando Jeff Bezos e Elon Musk como exemplos de empreendedores que expandem seus domínios após estabelecer uma base sólida. Ele se vê como um dos "raros" que, mesmo após o sucesso financeiro, quis "continuar jogando" e recomeçar do zero — passando de uma reunião geral com 20.000 funcionários na Uber para uma com seis em sua nova empresa.

A estratégia de Kalanick é uma aposta na integração vertical de hardware, software e operações físicas, aplicando um framework computacional a indústrias tradicionais. A construção em modo furtivo foi uma resposta tática à sua notoriedade, mas também uma ferramenta para forjar uma cultura focada no produto, não na percepção externa. O sucesso da Atoms dependerá não apenas da viabilidade técnica de cada componente — da robótica à autonomia —, mas da capacidade de gerenciar um conglomerado industrial de complexidade rara. Se bem-sucedido, o "computador de átomos" pode se tornar um novo paradigma. Se falhar, será um estudo de caso sobre os limites da ambição de um fundador em seu segundo ato.

Fonte · Brazil Valley | Podcast