A prefeitura de São Fidélis, município de 40 mil habitantes no Norte Fluminense, vai arcar com um cachê de R$ 850 mil pela apresentação da cantora Ana Castela na exposição agropecuária local. O detalhe: R$ 800 mil desse valor virão de uma emenda parlamentar destinada pela deputada federal Dani Cunha (PL-RJ), com os R$ 50 mil restantes saindo dos cofres da própria prefeitura.

O caso, noticiado inicialmente pelo portal Poder360, não é um ponto fora da curva, mas um retrato fiel de uma engrenagem consolidada na política brasileira. Ele expõe a dinâmica entre o poder de alocação de verbas de parlamentares e as prioridades de prefeitos, frequentemente alinhados partidariamente — como aqui, onde o prefeito José William também é filiado ao PL. A questão central não é a legalidade, mas a oportunidade e a eficiência do gasto público.

O mecanismo da festa

O recurso que banca a maior parte do show tem origem em uma emenda de R$ 1 milhão, indicada por Dani Cunha em 2025 para fomentar “ações de cultura e turismo” na cidade. A gestão municipal teve a discricionariedade para direcionar 80% do montante para uma única apresentação. Para um público estimado em 4 mil pessoas, o custo do cachê equivale a R$ 212 por espectador, um valor expressivo para um evento público em uma cidade de pequeno porte.

A lógica é politicamente rentável. Para a deputada, a emenda se materializa em um evento de grande visibilidade, gerando capital político e reforçando laços com sua base eleitoral. Para o prefeito, o show atende a uma demanda popular por entretenimento, produzindo um efeito positivo de curto prazo. A discussão que se impõe é sobre o custo de oportunidade: quais outras carências em cultura, infraestrutura ou serviços básicos poderiam ser atendidas com R$ 850 mil no orçamento de São Fidélis?

O episódio ilustra a tensão inerente ao uso de emendas parlamentares. Embora sejam um instrumento legítimo para direcionar verbas para as necessidades locais, sua aplicação muitas vezes privilegia o espetáculo em detrimento de investimentos estruturantes. A decisão de bancar um show de alto cachê, em vez de, por exemplo, reformar um centro cultural ou financiar projetos contínuos, diz muito sobre as prioridades e os incentivos do sistema político.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney