Os incêndios florestais que devastaram o Canadá em 2023 tiveram um custo que atravessou o Atlântico. Um novo estudo calculou que a fumaça gerada pelas chamas reduziu a geração de energia solar em 3% tanto na América do Norte quanto na Europa, resultando em perdas combinadas de quase US$ 2 bilhões. A cifra expõe uma vulnerabilidade sistêmica e inesperada na transição energética global.

A pesquisa, publicada no periódico Communications Earth & Environment e repercutida pela New Scientist, demonstra como eventos climáticos extremos em uma região podem ter consequências econômicas e energéticas diretas em outra. O que parecia ser um problema localizado de poluição atmosférica se revelou um fator de instabilidade para a matriz energética de países a milhares de quilômetros de distância.

A sombra transatlântica

O mecanismo é direto: densas plumas de fumaça viajaram pela atmosfera, espalhando-se pelo hemisfério norte e diminuindo a quantidade de luz solar que chegava ao solo. Segundo os pesquisadores, o impacto financeiro foi maior na Europa, com perdas de US$ 1,17 bilhão, do que na América do Norte, que perdeu US$ 711 milhões. A Alemanha foi o país europeu mais afetado.

A desproporção se explica por dois fatores. Primeiro, os preços da eletricidade na Europa são historicamente mais elevados. Segundo, grande parte da capacidade solar dos EUA está concentrada nos estados do sul e oeste, que foram menos atingidos pela trajetória da fumaça. O estudo, liderado por Iulian-Alin Roșu, da Universidade Técnica de Creta, considerou até mesmo um efeito atenuante: o leve resfriamento causado pela fumaça aumentou marginalmente a eficiência dos painéis solares, mas o ganho foi insuficiente para compensar a perda de geração.

O feedback loop climático

O problema não termina na perda de receita. A energia solar que deixou de ser produzida precisou ser compensada por outras fontes na rede elétrica. A leitura mais provável é que essa lacuna tenha sido preenchida, em parte, por combustíveis fósseis, como gás natural e carvão, resultando em um aumento nas emissões de CO2.

Cria-se, assim, um ciclo vicioso: mais emissões contribuem para o aquecimento global, que por sua vez intensifica a frequência e a severidade dos incêndios florestais. Estes, por sua vez, prejudicam a geração de energia limpa, forçando o acionamento de fontes mais poluentes. “Está claro que estamos enfrentando uma situação que continuará acontecendo”, afirmou Roșu à New Scientist.

O fenômeno não foi um evento isolado de 2023. Com a fumaça canadense chegando novamente à Europa este ano, os pesquisadores alertam que o padrão se repete. A resiliência da matriz energética agora depende não apenas da infraestrutura local, mas também da estabilidade climática de todo o planeta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · New Scientist