A decisão da Tailândia de suspender a construção de 49 data centers na semana passada é mais do que um fato isolado. O movimento, que visa a criação de novas regras sobre uso de recursos e segurança, sinaliza que a reação contrária ao boom da inteligência artificial, há tempos fermentando nos Estados Unidos, ganha tração na Ásia.

Segundo reportagem da revista Fortune, o episódio reflete uma tensão crescente. Após cortejarem a indústria com incentivos fiscais e acesso facilitado a terrenos, energia e água, governos asiáticos agora se deparam com os limites físicos da expansão. “Existem limites para a rapidez com que se pode construir data centers em escala”, afirmou Kevin Guan, CIO da Bridge Data Centres, empresa investida pelo Bain Capital. A tese é que a indústria está sendo forçada a se reinventar em tempo real.

A arquitetura da escassez

O primeiro campo de batalha é o design. A pressão por espaço e recursos está obrigando o setor a repensar a própria natureza de um data center. Em cidades asiáticas com alta densidade demográfica e pouco terreno disponível, como Singapura e Hong Kong, os projetos já são verticais, alcançando 10 ou 11 andares e se aproximando de áreas residenciais. A mudança exige uma nova narrativa. “Precisamos mover os data centers da percepção de infraestrutura industrial para algo que é parte da infraestrutura cívica, que serve a uma comunidade”, disse John Taylor, líder global de instalações críticas na firma de arquitetura Gensler.

Essa integração passa por soluções criativas de engenharia. Desenvolvedores já experimentam desviar o excesso de calor gerado pelos servidores para aquecer piscinas públicas no inverno. Em Johor, na Malásia, a Bridge Data Centres construiu uma estação de tratamento em seu campus para reciclar o esgoto municipal, minimizando o impacto no fornecimento de água potável da cidade. “O que não usamos, devolvemos à comunidade na forma de água limpa”, explicou Guan.

O dilema do tempo e da energia

Outro desafio é o descasamento de cronogramas. Edifícios de data centers são projetados para durar até 20 anos, mas os chips de IA mais avançados se tornam obsoletos em menos de cinco. Para lidar com essa velocidade, a Bridge aposta em construção modular, permitindo que o hardware interno seja trocado “como peças de Lego”, segundo Guan, sem a necessidade de reconstruir toda a estrutura.

Apesar dos esforços, a questão fundamental da energia persiste. De acordo com a Agência Internacional de Energia, cerca de 56% da energia consumida por data centers no mundo vem de carvão e gás natural. Essa dependência coloca em xeque as metas climáticas corporativas. A própria Gensler, que tem um compromisso de zerar suas emissões de carbono até 2030, admite a dificuldade. Questionado sobre o impacto do boom da IA nessa meta, Taylor foi direto: “Isso parece extremamente desafiador”.

A corrida pela supremacia em inteligência artificial se tornou, portanto, inseparável de uma complexa negociação com os limites do mundo físico. As inovações em design e uso de recursos são respostas necessárias, mas podem não ser suficientes se o problema central da matriz energética não for endereçado com a mesma urgência.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune