As ações da IBM sofreram sua pior queda em quase 40 anos nesta terça-feira, com os papéis chegando a recuar mais de 26% em Nova York. O gatilho foi a divulgação de resultados preliminares para o segundo trimestre de 2026 que frustraram as expectativas do mercado, acendendo um sinal de alerta sobre a dinâmica da indústria de tecnologia.

Com uma receita de US$ 17,2 bilhões, abaixo do consenso de US$ 17,86 bilhões, a prévia da IBM expõe um paradoxo. O movimento sugere que a corrida desenfreada por infraestrutura de inteligência artificial, que deveria ser um vento a favor, pode estar pressionando os orçamentos de software e serviços, mesmo para um player estabelecido e com forte aposta no setor corporativo.

O paradoxo do hardware

Em carta a investidores, o CEO Arvind Krishna atribuiu o desempenho a uma mudança de última hora no comportamento dos clientes. Segundo ele, no fim de junho, empresas redirecionaram gastos para a compra de servidores, armazenamento e memória, antecipando restrições de oferta e aumentos de preços. Some-se a isso o adiamento de “vários negócios grandes” por preocupações com cibersegurança, e o ritmo de fechamento de contratos foi afetado.

A leitura aqui é que o apetite voraz por hardware para rodar modelos de IA está canibalizando outras frentes. A receita de software da IBM, embora tenha crescido 5%, não conseguiu compensar a queda de 7% em infraestrutura, impactada pela fraqueza nos sistemas Z, historicamente um pilar de rentabilidade da companhia. O negócio de consultoria, por sua vez, ficou praticamente estável.

Um alerta para o setor

O episódio serve de termômetro para todo o setor de software. Há meses, investidores e analistas debatem se as ferramentas de IA generativa, capazes de automatizar tarefas complexas, representam uma ameaça existencial ao modelo de negócio de software como serviço (SaaS). A derrocada da IBM oferece uma evidência mais imediata e pragmática: a corrida pelo hardware está espremendo os orçamentos que antes eram destinados a software e projetos de consultoria.

O mercado teme que a priorização de investimentos em chips e data centers para IA deixe pouco espaço para outras categorias de TI. Se até mesmo um gigante como a IBM, com seu portfólio diversificado e profundo alcance no mundo corporativo, sente o impacto, a questão se estende a todo o ecossistema de tecnologia.

A IBM prometeu detalhar os números e ajustar suas projeções para o ano em uma teleconferência em 22 de julho. Até lá, o mercado fica com uma pergunta incômoda: se a maré da IA não está levantando todos os barcos da mesma forma, quem mais pode ser pego pela correnteza?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times