A SAP, gigante alemã de software empresarial, suspendeu a maior parte das contratações e viagens internas em uma tentativa de controlar os custos crescentes associados à sua aposta em inteligência artificial. A medida, comunicada aos funcionários globalmente em julho, continua em vigor e direciona recursos exclusivamente para funções e projetos de IA, segundo um email interno obtido pelo site 404 Media.
O movimento da SAP não é um caso isolado, mas um sintoma de uma realidade que começa a se impor no mundo corporativo: a implementação de IA é cara. A narrativa de que a tecnologia seria uma panaceia para redução de custos está sendo confrontada com as despesas imediatas de desenvolvimento, aquisições estratégicas e, principalmente, o consumo de tokens de modelos de linguagem, que pode sair do controle rapidamente.
O custo da corrida
No comunicado interno, a liderança da SAP justifica a necessidade de “ser disciplinado na forma como gastamos”. A empresa cita “investimentos significativos nos produtos e capacidades de IA que construímos” e o aumento dos custos relacionados ao uso de tokens à medida que mais cenários de IA são implementados internamente. Na prática, a companhia está fazendo uma escolha estratégica: cortar despesas operacionais generalizadas para financiar o que considera o futuro do negócio.
Este dilema financeiro ecoa por todo o setor. A reportagem menciona que outras gigantes da tecnologia estão adotando medidas semelhantes de contenção. O Citi teria bloqueado o acesso a certos modelos de IA, enquanto a Atlassian e a Adobe abandonaram planos de uso ilimitado. A própria Microsoft, uma das principais provedoras da tecnologia, implementou limites de orçamento para suas equipes. O recado é claro: a era do “cheque em branco” para a experimentação com IA generativa está chegando ao fim, dando lugar a uma gestão de custos mais rigorosa.
O paradoxo da produtividade
O cenário revela um paradoxo. A inteligência artificial é promovida como uma ferramenta de ganho de produtividade e eficiência, mas sua fase inicial de adoção está se mostrando um centro de custo significativo. A SAP afirma que as medidas “não são sobre fazer menos”, mas sobre “fazer escolhas deliberadas”. É uma forma corporativa de admitir um rebalanceamento orçamentário forçado, onde áreas tradicionais perdem espaço para a nova prioridade tecnológica.
O desafio é amplificado pelo uso indiscriminado. Em áudio vazado da Accenture, um executivo lamentava o “gasto crescente com tokens” por funcionários não técnicos usando a tecnologia para tarefas triviais. O problema espelha os primórdios da computação em nuvem, que deu origem à disciplina de FinOps para controlar gastos. Agora, surge a necessidade de uma governança similar para IA, garantindo que o investimento se traduza em valor real, e não apenas em contas mais altas.
A decisão da SAP e de seus pares não sinaliza um recuo na aposta em IA, mas sim um amadurecimento do mercado. A euforia inicial cede espaço a uma abordagem mais sóbria e focada em retorno sobre o investimento. A questão para os líderes não é mais se devem adotar a tecnologia, mas como fazê-lo de forma sustentável, sem canibalizar outras áreas essenciais do negócio.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 404 Media





