A Associação Brasileira de Infraestrutura e Serviços Cloud (AbraCloud) protocolou uma carta aberta ao Executivo Federal com um apelo direto: é preciso acelerar a regulamentação do REDATA, o recém-aprovado Regime Especial de Tributação para a Infraestrutura de Dados e IA. O documento, que representa empresas nacionais de tecnologia, argumenta que o tempo é um fator crítico para que o Brasil não se torne um mero consumidor na nova economia da inteligência artificial.
A tese central da AbraCloud é a de um “paradoxo digital”. Enquanto o uso de IA cresce de forma exponencial na economia brasileira, a infraestrutura que a sustenta — especificamente as GPUs de alto desempenho — permanece majoritariamente fora do país. Na prática, o Brasil importa capacidade de processamento, gerando uma dependência tecnológica e drenando valor que poderia ser capturado localmente. O REDATA é visto como a peça que pode começar a reequilibrar essa balança, mas sua eficácia depende da agilidade do governo em torná-lo operacional.
O custo de estar aqui
O diagnóstico apresentado pela AbraCloud não é novo, mas ganha contornos dramáticos na era da IA generativa. Historicamente, o custo de capital e a carga tributária tornaram a competição desigual. Segundo a carta, “o mesmo equipamento custa o dobro aqui”. Em um mercado globalizado onde o preço é definido pela internet, essa desvantagem estrutural não apenas comprime margens, mas inviabiliza a própria existência de certas operações em solo nacional. O resultado, ironicamente, é um “protecionismo que protege os estrangeiros”.
O REDATA foi a vitória legislativa para atacar esse problema, mas a associação alerta que a lei por si só não resolve a questão. Sem uma regulamentação rápida e eficiente — um “fast track” —, a janela de oportunidade para construir uma base de infraestrutura competitiva pode se fechar. O apelo é para que a teoria da lei se transforme em prática de mercado antes que a dependência se torne irreversível, transformando o Brasil em um cliente perpétuo das plataformas de nuvem estrangeiras.
Infraestrutura como soberania
O argumento da AbraCloud transcende a economia e entra no campo da estratégia geopolítica. A carta afirma que “com IA, pensar passa a ter infraestrutura”. A posse e o controle local sobre as GPUs não são apenas uma questão de performance ou custo, mas de soberania. Ter a capacidade de processar dados sensíveis e treinar modelos de linguagem dentro de fronteiras nacionais transforma a dependência externa em uma escolha estratégica, e não em uma imposição técnica.
Nessa visão, a capacidade de “gerar os tokens aqui” é uma condição para a autonomia digital. Garante que a inovação, os dados e o controle sobre as ferramentas que “potencializam o pensamento” não estejam sujeitos a decisões ou interesses de outros países. É uma mudança de paradigma: de um país que consome inteligência a um que possui os meios para produzi-la.
O movimento da AbraCloud coloca a bola no campo do governo. A aprovação do REDATA foi o primeiro passo, mas a corrida pela soberania em IA será definida pela velocidade e pela qualidade da execução. A indústria sinaliza que tem a capacidade e a vontade; a pergunta que fica é se o Estado terá a agilidade necessária para criar as condições.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





