Quase oito anos após o colapso da Ponte Morandi em Gênova, uma das mais graves falhas de infraestrutura da história recente da Europa, a justiça italiana sentenciou Giovanni Castellucci, ex-CEO da concessionária Autostrade per l'Italia (Aspi), a 12 anos de prisão. A condenação por múltiplos homicídios culposos por negligência é a mais alta entre os 32 réus considerados culpados pela tragédia de 14 de agosto de 2018, que custou a vida de 43 pessoas.

A decisão, reportada por veículos como o The Guardian e a publicação de design Dezeen, representa um marco. Ela eleva a responsabilidade por falhas operacionais do campo técnico para o mais alto escalão executivo, transformando um desastre de engenharia em um caso emblemático de governança corporativa. Para Castellucci, a sentença se soma a outra pena que já cumpre por um acidente rodoviário de 2013, pintando o retrato de uma gestão marcada por desastres.

Entre o projeto e a manutenção

O cerne do julgamento foi a disputa de narrativas sobre a causa raiz do colapso. De um lado, a defesa argumentou que a ponte, projetada nos anos 1960 pelo engenheiro Riccardo Morandi, continha uma falha de projeto fatal em seu uso não convencional de concreto protendido para os estais. Do outro, os promotores sustentaram que a tragédia foi fruto de uma cultura de negligência, com a manutenção da estrutura sendo sistematicamente adiada para economizar custos.

A condenação de Castellucci e sua equipe sinaliza que, para o tribunal, a tese da negligência prevaleceu. A leitura é que, independentemente de eventuais vulnerabilidades do projeto original, era dever da concessionária garantir a segurança da operação através de monitoramento e manutenção rigorosos. A decisão estabelece que a responsabilidade final pela integridade de uma infraestrutura crítica recai sobre quem a opera e lucra com ela.

Um precedente para concessionárias

O veredito de Gênova ecoa para além das fronteiras italianas, servindo como um alerta para operadores de infraestrutura concedida em todo o mundo. A responsabilização criminal de um CEO por uma falha operacional envia uma mensagem inequívoca: a otimização de custos não pode se sobrepor ao dever fiduciário de garantir a segurança pública. O caso ilustra o risco reputacional, financeiro e, agora, penal, associado à gestão de ativos críticos.

A demolição dos restos da Ponte Morandi e sua substituição pela nova Ponte San Giorgio, projetada pelo renomado arquiteto Renzo Piano, foi mais do que uma reconstrução. Representou uma tentativa de virar a página simbólica, trocando um ícone da engenharia do pós-guerra, que se tornou sinônimo de tragédia, por uma estrutura que busca representar transparência e segurança.

As sentenças foram proferidas e uma nova ponte se ergue em Gênova. Contudo, as questões levantadas pelo colapso da Morandi permanecem. O veredito é uma resposta a um desastre específico, mas funciona como um aviso sobre os riscos sistêmicos embutidos em modelos de concessão. O teste será se o aviso será ouvido antes que uma nova tragédia force a mesma dolorosa lição.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen Architecture