A menos de três semanas do primeiro turno da eleição de 2026, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família. O movimento, que segundo o Ministério do Planejamento terá um custo de R$ 5,8 bilhões ainda este ano e R$ 22 bilhões em 2027, não estava previsto na proposta orçamentária enviada ao Congresso.

O episódio não é um fato isolado, mas um eco quase literal de uma estratégia vista há quatro anos. A decisão de usar a caneta para impulsionar o principal programa de transferência de renda do país às vésperas do pleito repete a cartilha do ex-presidente Jair Bolsonaro, levantando novamente o debate sobre a fronteira entre política social e oportunismo eleitoral. A análise é baseada em reportagem do Money Times.

O espelho de 2022

Em junho de 2022, a 100 dias da eleição, o então presidente Jair Bolsonaro sancionou um aumento de 50% no Auxílio Brasil — nome que seu governo deu ao Bolsa Família —, elevando o benefício de R$ 400 para R$ 600. Na mesma canetada, incluiu 2,2 milhões de novas famílias no programa. O custo da medida, de R$ 14 bilhões anuais, também não constava no Orçamento e pressionou as contas públicas do ano seguinte, herdadas pelo próprio Lula.

A semelhança entre os dois movimentos é estrutural. Em ambos os casos, um presidente em busca da reeleição, diante de um cenário de disputa acirrada, recorre a um aumento de benefício social sem planejamento fiscal prévio. A tática, antes vista como uma ousadia de Bolsonaro, parece agora normalizada, tornando-se um instrumento recorrente no arsenal político do incumbente.

A normalização do 'vale-tudo' fiscal

O que está em jogo é a previsibilidade da política fiscal e a própria natureza dos programas de Estado. Quando a transferência de renda é condicionada ao calendário eleitoral, ela perde seu caráter de política pública estável e se torna uma ferramenta de campanha. A manobra cria uma armadilha para o debate público: criticar o mérito do gasto é politicamente impopular, mas ignorar sua origem e seu impacto fiscal é irresponsável.

Com Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados nas pesquisas, segundo o cenário traçado pela fonte, a lógica por trás da decisão é puramente pragmática. Contudo, ao repetir a fórmula do adversário, o governo atual legitima uma prática que fragiliza as âncoras fiscais e institucionais do país, independentemente de quem saia vitorioso nas urnas.

O ciclo se repete, com diferentes atores empunhando as mesmas ferramentas. A questão que permanece é se esta estratégia se tornou um elemento permanente das eleições presidenciais brasileiras e qual será seu custo de longo prazo para a saúde institucional e fiscal da nação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times