Um marco demográfico silencioso, mas de consequências profundas, foi atravessado. Pela primeira vez na história registrada, o número de pessoas com 65 anos ou mais superou o de crianças com menos de cinco anos em todo o mundo. O dado, que consolida uma tendência observada entre 2020 e 2025, vem de um abrangente relatório da Oficina do Censo dos Estados Unidos, intitulado 'Um Mundo que Envelhece'.

A inversão da pirâmide etária não é uma surpresa, mas sua velocidade, sim. A tese central do documento é que o ponto de inflexão foi atingido muito antes do que os demógrafos esperavam há apenas uma década. O fenômeno, antes visto como um desafio para nações ricas, tornou-se uma realidade estrutural global, com implicações diretas para o crescimento econômico, a sustentabilidade dos sistemas de previdência e a organização dos serviços de saúde.

Um ponto de inflexão global

O relatório americano destaca um dado crucial: em 2023, mais de 71% da população mundial já residia em países com taxas de fecundidade iguais ou inferiores ao nível de reposição de 2,1 filhos por mulher. Em 2013, essa proporção era de apenas 45%. A mudança foi impulsionada pela entrada de países populosos como Índia, Bangladesh, México e Vietnã nesta nova realidade demográfica, somando mais de um bilhão de pessoas a este grupo.

Essa aceleração desfaz a antiga dicotomia entre um Norte envelhecido e um Sul jovem. O envelhecimento populacional deixou de ser um problema exclusivo de Japão, Coreia do Sul ou Europa para se tornar um desafio compartilhado por economias de renda média. A combinação de maior expectativa de vida com a queda nas taxas de natalidade é um padrão que se universalizou, exigindo uma reavaliação das políticas públicas em escala planetária.

Novas geografias do envelhecimento

Apesar da tendência global, as trajetórias nacionais divergem. A Europa continua sendo a região mais envelhecida em termos percentuais, com projeção de que 30,8% de sua população tenha mais de 65 anos em 2060, contra 21% hoje. No entanto, em números absolutos, a África, o continente mais jovem, terá mais idosos que a Europa até lá: 249 milhões contra 214 milhões, respectivamente. Este paradoxo ilustra a escala do desafio de infraestrutura e cuidados que se avizinha para nações africanas.

No extremo do envelhecimento rápido está a Coreia do Sul, que em 2060 deverá ter quase 41% de sua população acima dos 65 anos, tornando-se a nação mais idosa do planeta. Curiosamente, os EUA devem se tornar relativamente mais jovens no ranking global, caindo da 48ª para a 110ª posição entre os países mais envelhecidos, em parte devido à imigração e a uma taxa de fecundidade ligeiramente mais alta que a de outros países desenvolvidos.

O relatório não é uma profecia, mas um retrato de uma transformação em curso. A questão para governos e empresas não é mais se o mundo envelhecerá, mas como as sociedades se adaptarão a uma realidade com menos jovens trabalhadores e consumidores e uma demanda crescente por serviços de saúde e assistência. Para países como o Brasil, que envelhece em ritmo acelerado antes de atingir a plena prosperidade, a janela para reformas estruturais é cada vez mais curta.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka