Há uma ortodoxia na indústria da música quando o assunto é o impacto climático: a maior parte da pegada de carbono dos shows ao vivo vem do deslocamento do público. Estudos apontam que a viagem dos fãs para os locais dos eventos responde por mais de 60% das emissões nos Estados Unidos e quase 80% no Reino Unido. Esta é a "principal conclusão" de relatórios do setor há pelo menos duas décadas, desde que análises do Radiohead e da organização sem fins lucrativos Julie’s Bicycle, em 2007, solidificaram essa visão.
Baseado em um trecho do livro "Recomposed: Music, Climate, Crisis, Change", publicado pelo Lit Hub, a leitura aqui é que essa conclusão, embora factualmente mensurável, não é neutra. Ela serve a um propósito estratégico: transformar um problema sistêmico em uma questão de responsabilidade individual. Ao mirar nos "maus hábitos" do fã, a indústria desvia o escrutínio de suas próprias práticas e da estrutura econômica que torna esse consumo de carbono quase inevitável, tanto para quem está no palco quanto para quem está na plateia.
A invenção do 'Homo carbonicus'
O foco no transporte da audiência cria uma figura abstrata, o "Homo carbonicus": o indivíduo cujas emissões podem ser auditadas, rastreadas e, em última análise, responsabilizadas. Nessa lógica, os esforços para a redução de emissões devem ser "amplamente direcionados" ao comportamento dos fãs. A narrativa é tão poderosa que minimiza o impacto de outros atores. As emissões dos jatos privados de artistas como Taylor Swift ou as pausas em turnês de bandas como o Massive Attack são enquadradas como "minúcia" quando comparadas ao volume agregado gerado pela plateia.
A consequência é uma falsa dicotomia que opõe artistas e público, ignorando o que eles fundamentalmente compartilham: a necessidade de participar de uma estrutura econômica que compele o consumo de carbono. Músicos e fãs, em sua maioria, precisam de empregos para viver e se deslocar para trabalhar ou para o lazer. Apontar a "ironia" de um fã ecologicamente consciente dirigir até um festival é uma análise superficial. É o equivalente a examinar as árvores para evitar a discussão sobre a floresta. O problema real não é o ato individual, mas o sistema que o normaliza e o exige.
A cartilha corporativa da evasão
Essa estratégia de individualização da culpa não foi inventada pela indústria da música. Ela é importada diretamente do manual corporativo de gigantes de outros setores. O principal padrão de contabilidade de carbono, o Greenhouse Gas Protocol (GHG Protocol), não nasceu de um movimento ambientalista, mas de uma iniciativa de 1997 liderada pela British Petroleum (BP), com a participação de empresas como General Motors e Monsanto. O objetivo era claro: criar um sistema de medição próprio antes que governos impusessem regulações mais rigorosas. É a cartilha clássica de antecipação: defina você mesmo as regras do jogo.
O protocolo permite o que se pode chamar de manobras evasivas. Ele é preciso para medir emissões diretas (escritórios, frotas), mas sua interpretação é flexível para emissões de cadeia de valor. É assim que o Spotify pode afirmar que 99% de suas emissões estão "fora de seu controle direto", ou que uma associação de gravadoras independentes pode se isentar da responsabilidade pelas emissões de serviços de streaming. A "responsabilidade" torna-se um exercício de delimitar fronteiras contábeis favoráveis. Grandes empresas de música, como Warner e Universal, seguem o roteiro, contratando executivos de ESG e publicando relatórios anuais que, no fundo, se apoiam nessa mesma lógica de externalizar o grosso do problema.
A fixação em calcular a pegada de carbono do fã, portanto, é mais do que um exercício de metrologia. É uma ferramenta política que desorganiza a oposição e perpetua um modelo de negócio. Ao adotar os padrões criados por gigantes do petróleo, a indústria da música se torna cúmplice em manter a discussão focada em quem vai ao show, e não em quem lucra com ele. A questão fundamental não é apenas como medir as emissões, mas quem se beneficia de medi-las dessa forma.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





