Um relatório da Fundação Más Sénior na Espanha acendeu um alerta sobre uma crise silenciosa no mercado de trabalho: o desemprego de profissionais experientes. Segundo dados publicados pela entidade e reportados pela Forbes Espanha, pessoas com mais de 45 anos já representam 57,5% do total de desempregados no país, um contingente de 1,35 milhão de trabalhadores.
Os números expõem um paradoxo. Em um momento em que se discute a longevidade da força de trabalho, a experiência parece ter se tornado um passivo. A análise da fundação sugere que não se trata de uma flutuação sazonal, mas de um problema estrutural de etarismo, onde o “talento sênior segue sendo considerado erroneamente um recurso prescindível”, nas palavras de Sonia Catalán, diretora-geral da instituição.
A matemática da exclusão
A dificuldade de recolocação é visível na matemática das contratações. De mais de 1,1 milhão de contratos formalizados em agosto na Espanha, apenas 25,75% foram destinados a maiores de 45 anos — ou seja, apenas uma em cada quatro vagas. Pior: desses, quase dois terços (64%) foram para posições temporárias, frequentemente associadas a trabalhos sazonais e de menor qualificação.
O cenário revela um viés que vai além da porta de entrada. Quando conseguem uma oportunidade, profissionais experientes são empurrados para a precariedade. O problema é ainda mais grave para as mulheres, que somam 829 mil desempregadas nessa faixa etária, contra 525 mil homens. A fundação classifica o quadro como um “problema crônico e fortemente feminizado”, indicando um duplo preconceito de idade e gênero.
Um espelho para o Brasil
Embora os dados sejam espanhóis, o fenômeno reverbera com força no Brasil. Aqui, a discussão sobre a “economia prateada” e a inclusão de profissionais mais velhos convive com uma cultura corporativa que, especialmente em setores de tecnologia e inovação, supervaloriza a juventude. A pressão por requalificação constante muitas vezes mascara um preconceito contra a bagagem acumulada.
O apelo da Fundação Más Sénior por políticas públicas, e não apenas por iniciativas corporativas isoladas, é o ponto central. A questão não é apenas criar incentivos fiscais para a contratação, mas erradicar o etarismo dos processos de seleção e construir um mercado que enxergue a carreira como um contínuo de aprendizado, onde a experiência não é um ponto final, mas uma plataforma para o crescimento.
O debate proposto não é sobre criar uma disputa entre gerações, mas sobre a racionalidade econômica e social de um mercado de trabalho que aproveite todo o seu potencial humano. Os números da Espanha são um lembrete de que, sem uma ação deliberada, uma parcela valiosa do capital intelectual de um país pode ser sistematicamente deixada para trás.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





