A política tarifária mais agressiva dos Estados Unidos está cobrando seu preço na balança comercial brasileira. As exportações do Brasil para o mercado americano somaram US$ 24,1 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, uma queda expressiva de 9,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. O recuo representa uma perda de US$ 2,6 bilhões em vendas e marca o pior resultado para o período desde 2023.

Os dados são do Monitor do Comércio Brasil–EUA, elaborado pela Amcham Brasil, e não deixam dúvidas sobre a origem do problema. A trajetória de retração não reflete uma perda de competitividade generalizada do produto brasileiro, mas sim um impacto direto e localizado das sobretaxas impostas por Washington. O movimento coloca em xeque a resiliência de uma das principais parcerias comerciais do país.

O Efeito Cascata das Sobretaxas

A análise detalhada dos números revela o peso do protecionismo. As exportações dos produtos sujeitos às sobretaxas mais elevadas, de 25% a 37,5%, sofreram uma retração de 29,1% no acumulado do ano. Itens como madeira de coníferas (-55,3%), fumo não manufaturado (-39,9%) e granitos trabalhados (-37,4%) viram suas vendas para os EUA despencarem, ilustrando o efeito cirúrgico das barreiras comerciais.

O mais alarmante é a divergência de trajetórias. Enquanto as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram nos três grandes setores — indústria de transformação (-4,9%), extrativa (-28,9%) e agropecuária (-26,7%) —, as vendas para o restante do mundo cresceram em todos eles. A leitura é clara: o problema não está na oferta brasileira, mas na demanda americana artificialmente reprimida por tarifas.

Dependência em Xeque

A indústria de transformação, que responde por mais de 83% da pauta exportadora para os EUA, sentiu o golpe com sua primeira retração desde 2020. Ainda que o mercado americano se mantenha como principal destino dos produtos industriais do Brasil, a dependência se torna um passivo estratégico. Produtos como petróleo bruto e semimanufaturados de ferro ou aço viram suas vendas aos EUA caírem, ao mesmo tempo em que avançaram em outros mercados.

A deterioração afeta o comércio bilateral como um todo. Segundo Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, a corrente de comércio entre os dois países encolheu em US$ 5,2 bilhões no ano, com perdas para ambas as economias. O quadro reforça a urgência de buscar soluções para reduzir as barreiras, antes que o distanciamento se torne estrutural.

Os dados de 2026 servem como um alerta. A relação comercial com os Estados Unidos, historicamente um pilar para a indústria brasileira, mostra-se cada vez mais suscetível a decisões políticas unilaterais. Para o Brasil, o desafio é duplo: negociar a reversão das tarifas e, ao mesmo tempo, acelerar a diversificação de mercados para mitigar uma vulnerabilidade que se tornou explícita.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney