A Coreia do Sul está lançando uma iniciativa de contornos ousados: oferecer inteligência artificial gratuita e ilimitada para sua população, integrada a serviços públicos. Batizado de “AI for All”, o programa prevê o início de testes em setembro, com expansão nacional até o fim do ano. Segundo reportagem do Tecnoblog, que cita veículos internacionais, os sistemas ajudarão os cidadãos em tarefas como agendar consultas médicas ou calcular impostos.

O movimento, porém, é mais profundo do que uma simples digitalização de serviços. Trata-se de uma clara manobra de política industrial e soberania digital. Com um investimento previsto de 10 trilhões de wons (cerca de R$ 37 bilhões) apenas neste ano, o governo sul-coreano não está subsidiando o uso de ferramentas como o ChatGPT ou o Claude. Pelo contrário: a condição é que os consórcios privados selecionados usem modelos de IA sul-coreanos em pelo menos 50% da arquitetura de seus serviços, numa tentativa de reduzir a dependência de tecnologia americana e chinesa.

Soberania em um mar de gigantes

A estratégia de Seul é um exemplo clássico de parceria público-privada para fomento industrial, adaptada à era da IA. Ao selecionar consórcios liderados por gigantes locais de telecomunicações e tecnologia — como SK Telecom, KT e Kakao —, o governo utiliza sua capacidade de investimento para criar um mercado cativo para a nascente indústria de IA nacional. A distribuição de até 512 aceleradores Nvidia B200 entre os participantes é um sinal claro do compromisso com a construção de infraestrutura própria.

O objetivo não é apenas oferecer uma conveniência à população, mas garantir que o país não se torne um mero consumidor de tecnologia estrangeira. Em um cenário geopolítico polarizado, a Coreia do Sul busca uma terceira via, cultivando um ecossistema próprio que possa, eventualmente, competir no cenário global. A exigência do uso de modelos locais é o mecanismo central para forçar essa capacitação interna, criando um ciclo de desenvolvimento e aplicação em escala nacional.

O modelo se espalha?

A iniciativa sul-coreana se junta a um coro crescente de nações que veem na IA uma questão de soberania. Países como França, Alemanha, Canadá e Singapura também desenvolvem estratégias nacionais, embora com abordagens distintas. O Brasil, com seu Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), foca em supercomputação e infraestrutura, mas o modelo de Seul se destaca pela agressividade do subsídio direto ao consumidor final.

O terreno é fértil: dados oficiais indicam que 25% da população sul-coreana já paga por serviços de IA, um índice de adoção significativamente maior que os 16% registrados no Brasil. Essa familiaridade pode acelerar a adesão ao programa e fornecer dados valiosos para o aprimoramento dos modelos locais. A questão que fica é se essa aposta criará um ecossistema de inovação genuíno ou se tornará um subsídio custoso para tecnologias que não conseguirão acompanhar o ritmo das big techs globais.

O experimento sul-coreano será um caso de estudo fundamental para outras nações que buscam equilibrar a oferta de serviços digitais avançados com a necessidade de autonomia tecnológica. A resposta definirá se a IA como serviço público pode ser também um atalho para a competitividade industrial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Tecnoblog