Uma livraria independente de Boston está testando uma tese ousada: se a crítica literária profissional está desaparecendo dos grandes veículos, talvez a solução esteja na própria loja. A Porter Square Books lançou a Porter Square Review of Books, uma publicação digital escrita e editada por sua própria equipe de livreiros. A iniciativa, segundo reportagem do site literário Lit Hub, é uma resposta direta ao vácuo deixado pelo encolhimento das seções de cultura em jornais e revistas.

O movimento não é apenas um projeto paralelo, mas uma aposta na formalização de um papel que os livreiros já exercem informalmente. Em um mercado saturado de lançamentos e dominado por algoritmos, o vendedor de uma boa livraria sempre foi um curador, um crítico de balcão. A questão agora é se esse papel pode ser estruturado, remunerado e escalado como uma nova forma de crítica, preenchendo uma lacuna que afeta toda a cadeia do livro, de autores a leitores.

O livreiro como curador

A lógica por trás da iniciativa, articulada por Josh Cook, um dos idealizadores no Porter Square, é que os livreiros já realizam o trabalho de base da crítica. “Eles já estão lendo, já pensando com algum engajamento crítico sobre o que faz um livro funcionar”, afirmou Cook ao Lit Hub. Transformar essa análise, que hoje se manifesta em recomendações verbais ou nos cartões de “dica do livreiro” na prateleira, em resenhas publicadas é o próximo passo.

O fenômeno tem paralelos claros com o cenário brasileiro, onde as redações também encolheram e a crítica de artes perdeu espaço e profundidade. O que a livraria de Boston propõe é um modelo descentralizado, onde a paixão e o conhecimento de quem está na linha de frente do varejo são convertidos em capital cultural. A aposta é que a autenticidade dessa curadoria, feita por quem respira livros diariamente, pode ter mais ressonância com o leitor do que listas genéricas ou a superficialidade de plataformas como o Goodreads.

O modelo de negócio da crítica

A Porter Square Review não é um trabalho voluntário. A publicação remunera cada resenha com US$ 50, um valor que o Lit Hub descreve como “maravilhosa ou horrivelmente” um dos melhores pagamentos para crítica online atualmente. O comentário irônico expõe a precariedade econômica que ajudou a dizimar a profissão. O modelo da livraria, portanto, também é um experimento sobre a sustentabilidade financeira da opinião.

Não se esperam resenhas majoritariamente negativas. A tendência, admite Cook, é que os livreiros escrevam sobre obras que os entusiasmaram. Ainda assim, ele não descarta a crítica contundente, citando que uma resenha negativa bem-argumentada pode, paradoxalmente, vender o livro para um público diferente, que se conecta justamente com os pontos que o crítico rechaçou. É uma visão sofisticada sobre o papel da crítica: não apenas julgar, mas descrever e contextualizar.

Se a iniciativa será um caso isolado ou o início de um movimento, é cedo para dizer. O projeto pode se provar um sucesso, influenciar outras livrarias ou falhar. Mas, como conclui o próprio Cook, em um ecossistema cultural que viu tanta coisa ser desfeita nos últimos anos, “é bom construir algo”. A aposta de Boston é um pequeno ato de reconstrução, tijolo por tijolo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub