Em 1961, no seu loft em Manhattan, Yoko Ono dedicou uma de suas famosas peças de gritos a Simone Forti. Naquele mesmo ano, no mesmo espaço, Forti estreou a obra seminal Five Dance Constructions and Some Other Things. O episódio não é uma nota de rodapé, mas um prólogo para duas trajetórias que correriam em paralelo, moldando a vanguarda artística do século XX. Com a morte de Forti, uma entrevista inédita, conduzida pela curadora Julia Bryan-Wilson e publicada pelo site Hyperallergic, lança nova luz sobre essa simbiose.

Nascidas com apenas dois anos de diferença — Ono em 1933, Forti em 1935 —, as artistas partilhavam mais do que a idade. Ambas foram migrantes transculturais cujas vidas foram marcadas pelo fascismo e pela guerra. A família judia de Forti fugiu da Itália de Mussolini; Ono, como mulher asiática nos Estados Unidos, foi alternadamente exotizada e vilipendiada. Essa experiência de deslocamento e discriminação parece ter informado uma arte que se recusava a aceitar fronteiras.

Vidas em paralelo

A entrevista revela uma consciência mútua dessa afinidade. Tanto Forti quanto Ono transgrediram as barreiras entre som, desenho, poesia, movimento e escultura. Em suas obras, objetos do cotidiano ganhavam status de colaboradores carregados de significado, e o toque era invocado como um modo fundamental de conexão. Eram artistas que não apenas criavam objetos, mas coreografavam experiências.

Para Forti, que se definia mais pelo movimento do que pela dança formal, o corpo era o principal instrumento de investigação. Para Ono, a voz e a participação do público cumpriam papel similar. O que as unia era uma desconfiança das categorias estanques e uma busca por uma linguagem artística que pudesse capturar a complexidade da vida vivida, com suas violências e suas delicadezas.

O corpo como arquivo

A publicação póstuma da conversa com Forti serve como um lembrete da natureza efêmera da arte performática. Uma vez que o corpo se cala, o que resta? Restam os registros, as memórias e, neste caso, a própria voz da artista refletindo sobre sua jornada. A humildade e o charme que transparecem na entrevista, segundo o Hyperallergic, contrastam com a radicalidade de sua produção.

O trabalho de Forti e Ono desafia a própria ideia de um legado material, como uma pintura ou uma escultura. Seu impacto reside na forma como abriram o campo da arte para novas possibilidades, influenciando gerações de artistas que vieram depois. A arte delas não está apenas nos museus; está na maneira como entendemos que um corpo se movendo no espaço pode ser tão potente quanto uma tela pintada.

O que sobrevive, então, não é o objeto, mas a ideia — a de que a arte pode ser um grito, um gesto, uma instrução. A entrevista funciona como um mapa para um território que já não pode ser visitado, apenas imaginado. E talvez essa seja a forma mais honesta de se aproximar de uma obra que sempre esteve ancorada no aqui e agora.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic