Em uma chamada com autoridades policiais de Ohio, o CEO da Flock, Garrett Langley, classificou como “inteiramente falsa” uma reportagem que detalhava o uso da tecnologia de sua empresa para rastrear uma mulher que auto administrou um aborto no Texas. A conversa, que não deveria ser pública, foi gravada por um jornalista e compartilhada com o site 404 Media, autor da reportagem original.
O episódio expõe a dissonância entre o discurso público de Langley, que recentemente iniciou uma ofensiva de relações públicas em veículos como o The New York Times, e a sua comunicação privada com seu principal cliente: a polícia. Mais do que uma gafe, a gravação revela uma estratégia deliberada para gerenciar narrativas e minar a credibilidade da imprensa, levantando um alerta sobre a falta de transparência em uma indústria que opera na fronteira entre segurança pública e direitos civis.
A versão e os fatos
Na chamada, Langley apresentou duas justificativas para desqualificar a reportagem. Primeiro, argumentou que a mulher não poderia estar sob investigação, pois ter um aborto não é crime no Texas, apenas administrá-lo. No entanto, documentos judiciais obtidos pela Electronic Frontier Foundation (EFF) mostram que a promotoria local discutiu, sim, a possibilidade de acusá-la criminalmente. O caso foi inicialmente classificado como uma “investigação de morte”.
Segundo, o CEO afirmou que a busca pela mulher era uma checagem de bem-estar, pois a família temia por sua vida em um contexto de relacionamento abusivo. A reportagem do 404 Media, baseada em registros policiais, demonstra que a investigação foi instigada pelo parceiro abusivo da mulher, e que a busca com a tecnologia da Flock ocorreu mais de duas semanas após o procedimento — um cronograma que enfraquece a urgência de um resgate. A narrativa de preocupação familiar só surgiu em documentos policiais após a publicação da matéria original.
O manual de crise
O ponto mais revelador da gravação é a orientação de Langley à polícia sobre como lidar com a imprensa. “Deixem que eu cuido do The New York Times, vocês cuidam da mídia local”, disse ele. “Eles querem ouvir de vocês, vocês conhecem seus repórteres, eles vão comprar uma história triste”. A sugestão de usar “sob stories” (histórias tristes, em tradução livre) para manipular a cobertura local é um vislumbre raro e cínico do manual de crise de uma empresa de tecnologia de vigilância.
Este não é um caso isolado. Langley já descreveu um projeto de código aberto que mapeia as câmeras da Flock como uma “organização terrorista”, para depois se desculpar. A empresa também foi pega em contradições sobre um programa piloto com a agência de imigração americana (ICE) e sobre as funcionalidades de seu software de mapeamento de calor, que levaram um conselho municipal a revogar um contrato um dia após aprová-lo.
O incidente vai além da credibilidade de um CEO. Ele joga luz sobre a relação simbiótica entre companhias de vigilância privada e o aparato estatal, e como essa aliança opera longe do escrutínio público. A questão que permanece não é se Langley mentiu, mas quantas conversas como esta acontecem a portas fechadas, moldando o uso de tecnologias poderosas em um vácuo de accountability.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 404 Media





