Após a divulgação de resultados financeiros robustos para o terceiro trimestre, o CEO da Disney, Josh D'Amaro, distribuiu um memorando interno que delineia uma visão ambiciosa para o futuro da companhia. A empresa reportou um crescimento de 7% na receita e um salto de 28% no lucro por ação ajustado, com a receita operacional do streaming mais do que dobrando para US$ 712 milhões.
Mais do que uma celebração dos números, o comunicado, obtido pelo Business Insider, revela a tese central da gestão de D'Amaro: transformar o Disney+ de um serviço de streaming em um 'super app'. A ideia é criar um ecossistema digital unificado onde os fãs não apenas assistem a filmes e séries, mas também interagem com jogos, compram produtos e acessam experiências exclusivas, aprofundando o relacionamento com a marca.
O Disney+ como ecossistema
A estratégia de D'Amaro busca resolver um dos maiores dilemas da era do streaming: a retenção de assinantes em um mercado saturado. Em vez de depender apenas do fluxo constante de novos conteúdos, a Disney quer construir uma plataforma com maiores custos de troca. O objetivo, segundo o CEO, é "aprofundar o engajamento, melhorar a proposta de valor, reduzir o churn e — mais importante — aumentar o valor vitalício do fã". A integração de jogos e mercadorias diretamente na interface do Disney+ é o caminho para isso.
Essa visão de um 'super app' não é inédita, com paralelos em ecossistemas asiáticos como o WeChat. Para a Disney, no entanto, é a aplicação lógica de seu famoso modelo 'flywheel', onde cada parte do negócio alimenta as outras. O plano, que deve começar a ser implementado na primavera de 2027, segundo o memo, também inclui um acordo com o TikTok para integrar vídeos curtos gerados por usuários, sinalizando uma abertura para formatos de mídia mais dinâmicos e sociais dentro de seu universo digital.
IA, a ferramenta do contador de histórias
O segundo pilar da estratégia tecnológica de D'Amaro é a inteligência artificial, mas com uma abordagem cuidadosamente calibrada. O CEO fez questão de posicionar a IA não como uma ferramenta de eficiência ou substituição de mão de obra, mas como um meio de "aprimorar um processo criativo que sempre será centrado no ser humano, impulsionado pelo artista e liderado pelo criador". A mensagem parece desenhada para acalmar os receios da comunidade criativa de Hollywood, que vê o avanço da tecnologia com desconfiança.
Essa narrativa contrasta com a visão mais utilitária da IA em outras gigantes de tecnologia. Para a Disney, cujo principal ativo é a propriedade intelectual e a capacidade de contar histórias, preservar a percepção de 'magia' e autoria humana é crucial. A leitura é que a empresa pretende usar a IA para otimizar processos de produção, como efeitos visuais e personalização de recomendações, em vez de delegar a ela a criação de roteiros ou personagens. Trata-se de adotar a inovação sem canibalizar a alma do negócio.
O memorando de Josh D'Amaro sinaliza uma Disney que busca o futuro sem abandonar seu passado. A execução dessa dupla ambição — construir um ecossistema digital integrado enquanto protege a centralidade do criador humano — será o grande teste de sua liderança. A rota para o 'super app' está traçada, mas o desafio de integrar tecnologia e storytelling de forma coesa e lucrativa apenas começou.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider


