A Novo Nordisk, gigante farmacêutica dinamarquesa por trás de medicamentos como o Ozempic, está aprofundando sua aposta em inteligência artificial. A companhia anunciou uma aliança estratégica com a Anthropic, uma das mais proeminentes startups de IA, para integrar o modelo Claude diretamente em seu processo de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de novos fármacos.

O movimento é mais significativo do que parece. A colaboração vai além da automação de tarefas administrativas, um campo onde a IA generativa já demonstra valor. A tese aqui é que a próxima fronteira competitiva na indústria farmacêutica não será definida apenas pela descoberta de novas moléculas, mas pela construção de uma infraestrutura de IA capaz de encontrá-las e validá-las com mais rapidez e eficiência.

Da burocracia à bancada

Até agora, a Novo Nordisk já utilizava a tecnologia da Anthropic de forma mais restrita. A farmacêutica desenvolveu o NovoScribe, uma plataforma interna construída sobre o modelo Claude para agilizar a criação de documentação regulatória e científica. Segundo dados divulgados pela Anthropic, a ferramenta reduziu o tempo de geração de certos documentos de semanas para minutos, com uma economia de 95% nos recursos necessários. Era um ganho de eficiência operacional, mas ainda periférico à atividade-fim do laboratório.

A nova aliança mira o coração do processo. O objetivo é usar o Claude — incluindo sua versão especializada, Claude Science — para auxiliar os cientistas em tarefas de raciocínio complexo, como a compreensão de mecanismos biológicos e o desenho de novas drogas. Trata-se de uma transição fundamental: da IA que preenche formulários para a IA que ajuda a formular hipóteses científicas.

A nova corrida do ouro farmacêutico

Esta parceria não é um movimento isolado. A Novo Nordisk vem montando um ecossistema de tecnologia em torno de seu P&D, incluindo uma colaboração estratégica com a Amazon Web Services (AWS) para criar um centro de inovação. A adição da Anthropic insere um modelo de fronteira no centro dessa estratégia, com a promessa de acelerar o ciclo que vai da identificação de um alvo terapêutico até os primeiros testes em humanos.

O racional econômico é claro. Desenvolver um medicamento custa bilhões de dólares e leva mais de uma década. Uma redução significativa nesse tempo não apenas diminui custos, mas, crucialmente, pode antecipar a entrada de um medicamento no mercado. Em uma indústria movida por patentes, cada dia a mais de vendas exclusivas representa um retorno sobre o investimento exponencialmente maior. A governança de dados e a supervisão humana serão críticas, mas a direção estratégica está traçada.

A competição no setor farmacêutico está se transformando em uma corrida para construir o motor de P&D mais inteligente. A aliança entre a líder em medicamentos para diabetes e obesidade e uma das principais arquitetas de modelos de linguagem é um sinal claro de que a inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta de suporte para se tornar um pilar estratégico na busca pelo próximo blockbuster.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España