O líder da principal entidade empresarial da Espanha fez um apelo incomum para lidar com uma crise geopolítica: usar o poder de compra. Antonio Garamendi, presidente da Confederação Espanhola de Organizações Empresariais (CEOE), alertou para o “colapso econômico” que a crise migratória está provocando em Ceuta, um enclave espanhol no norte da África, e convocou os espanhóis a viajarem para a cidade para “consumir” e “apoiar” os negócios locais.
A declaração, feita durante um evento sobre economia digital, transforma o ato de consumir em uma ferramenta de estabilização econômica e, implicitamente, de afirmação de soberania. A leitura aqui é que, diante de uma crise que o próprio Garamendi descreve como um “ataque direto à soberania nacional”, a resposta não deve vir apenas do Estado, mas também da sociedade civil, através de suas decisões de consumo.
Geopolítica no carrinho de compras
A proposta de Garamendi desloca o debate. Em vez de focar apenas em soluções de segurança ou diplomacia, ele insere a variável econômica no centro da resposta cívica. Ao pedir que os cidadãos viajem e gastem em Ceuta, ele busca criar um contrapeso econômico para a pressão sofrida pela cidade de 80 mil habitantes, cuja economia é vulnerável a tensões na fronteira.
O movimento é sutilmente político. Ao enquadrar o apoio econômico como uma resposta a um “ataque ao território europeu”, o líder empresarial eleva uma questão de consumo a um gesto de patriotismo. É uma forma de mobilização que não depende de ação governamental direta, mas do engajamento individual, transformando o turista em um ator geopolítico incidental.
O delicado equilíbrio do poder
Apesar da contundência ao descrever a crise, Garamendi evitou criticar diretamente o governo do presidente Pedro Sánchez, uma postura calculada para quem representa o establishment empresarial. Ao ser questionado, ele se esquivou: “Eu não entro em política, o que digo é que os cidadãos querem soluções”. É o clássico posicionamento de quem precisa influenciar o poder sem se tornar um adversário.
Esse equilíbrio reflete a complexidade da situação. Garamendi expressou apoio às forças de segurança e ao exército, mencionando ataques sofridos por eles, o que adiciona uma camada de urgência e conflito físico ao seu discurso primariamente econômico. A própria CEOE planeja realizar sua próxima reunião executiva em Ceuta, um gesto simbólico para materializar o apoio que prega.
A crise em Ceuta, vista pela ótica do empresariado, borra as fronteiras entre economia, segurança e política externa. O apelo de Garamendi é um sintoma de tempos em que crises complexas exigem respostas híbridas, e onde até mesmo o carrinho de compras pode ser visto como um instrumento de política nacional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España



