Em Ezkio-Itsaso, um município de pouco mais de 600 habitantes no País Basco, uma moderna estação de trem de alta velocidade (AVE) está pronta desde 2022. Há apenas um problema: nenhum trem passa por ali. O terminal, hoje frequentado por grafiteiros e tomado pela vegetação, é o sintoma mais visível de um impasse bilionário que assombra um dos maiores projetos de infraestrutura da Espanha.

A estação é parte da chamada “Y vasca”, uma ambiciosa rede de alta velocidade projetada há mais de duas décadas para conectar as três capitais bascas e ligar a região à França e a Madri. A parada em Ezkio-Itsaso foi construída na expectativa de servir como nó de conexão com a cidade de Pamplona, mas a obra foi entregue antes que a rota definitiva fosse sequer aprovada, transformando-se num monumento ao planejamento reativo e à descoexão entre execução e estratégia.

O dilema de um bilhão de euros

O futuro da estação fantasma está atrelado a uma escolha de alto custo. Conectar Pamplona à “Y vasca” através de Ezkio-Itsaso exigiria um investimento de €1,7 bilhão, segundo reportagem do site espanhol Xataka. A cifra astronômica se deve à necessidade de perfurar um túnel de 21 quilômetros na serra de Aralar, uma obra de engenharia complexa e com alto impacto ambiental.

A alternativa, muito mais barata, seria construir o ramal a partir de Vitoria, a um custo estimado de €585 milhões. A vantagem da rota mais cara seria um tempo de viagem 25 minutos menor. O debate, portanto, opõe um ganho marginal de eficiência a um custo adicional superior a €1,1 bilhão. Enquanto a decisão não vem, a estação de Ezkio-Itsaso permanece como um custo afundado, um ativo ocioso que ilustra os riscos de se construir sem um plano consolidado.

Um roteiro familiar

O caso espanhol ecoa um roteiro familiar em grandes projetos de infraestrutura ao redor do mundo, onde a ambição política e a execução de obras por vezes caminham em ritmos distintos. A decisão de construir uma estação antes de garantir a viabilidade e a aprovação de sua rota de acesso expõe uma falha fundamental de sequenciamento.

Enquanto os estudos para uma terceira via já estão em andamento e o debate político continua, a estrutura de concreto e aço em Ezkio-Itsaso serve como um lembrete caro. É a materialização de um projeto que colocou a carroça — ou, neste caso, a estação — na frente dos bois, ou melhor, dos trens.

O impasse da “Y vasca” não é apenas sobre ferrovias ou orçamentos. É uma lição sobre como a falta de alinhamento estratégico pode transformar um projeto de desenvolvimento em um problema de gestão, com custos que vão muito além do financeiro, erodindo a confiança pública na capacidade do Estado de executar planos complexos de forma eficiente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka