A história da vida na Terra é pontuada por eventos de extinção, mas raramente oferece a chance de observar a evolução rodando o mesmo roteiro duas vezes. Um estudo de 2019, baseado em registros fósseis, documentou um desses casos excepcionais no rascón de Aldabra (Dryolimnas cuvieri aldabranus), uma ave endêmica de um atol nas Seychelles. O pássaro protagonizou um fenômeno conhecido como evolução iterativa: uma linhagem evoluiu para a perda do voo, foi extinta e, milênios depois, repetiu a façanha.
O caso, repercutido pela publicação Xataka, não se trata de uma ressurreição, mas de uma demonstração da força das pressões ambientais. O processo revela que, dadas as mesmas condições e o mesmo ponto de partida genético, a seleção natural pode seguir um caminho notavelmente previsível, quase como se executasse um algoritmo para chegar à solução mais eficiente.
O paraíso e a queda
A primeira iteração começou quando rascones voadores, provavelmente oriundos de Madagascar, colonizaram o atol de Aldabra. No local, encontraram um ecossistema ideal: alimento farto no solo e ausência de predadores terrestres. Manter a capacidade de voo é energeticamente custoso, e sem a necessidade de fugir, a pressão seletiva favoreceu a otimização de recursos. Ao longo de gerações, as asas atrofiaram e as patas se fortaleceram, transformando a ave em uma espécie terrestre.
Contudo, este paraíso era geologicamente instável. Durante o Pleistoceno Superior, uma elevação massiva do nível do mar submergiu completamente o atol. Incapaz de voar para escapar, toda a fauna terrestre, incluindo o rascón não voador, foi extinta. O primeiro experimento da evolução em Aldabra havia chegado a um fim abrupto.
O mesmo roteiro, milênios depois
Milhares de anos mais tarde, o nível do oceano recuou e Aldabra emergiu novamente, tornando-se mais uma vez um habitat viável. Foi quando a natureza demonstrou sua capacidade de repetição. O mesmo linho de rascones voadores da região recolonizou a ilha e encontrou um cenário idêntico ao de seus ancestrais distantes: um paraíso sem predadores.
Submetidas exatamente às mesmas pressões ecológicas, as aves foram guiadas pelo mesmo caminho evolutivo. A seleção natural novamente favoreceu a perda da capacidade de voo em prol da eficiência energética no solo. Geneticamente, a nova população não é um clone da primeira, mas fenotipicamente, a solução encontrada pela evolução foi a mesma. Este processo é a definição da evolução iterativa: a reaparição de traços similares a partir do mesmo ancestral em momentos distintos.
O caso do rascón de Aldabra oferece uma perspectiva poderosa sobre a seleção natural. Ele desafia a noção de que a evolução é um processo puramente aleatório, sugerindo que, sob um conjunto estrito de regras ambientais, seus resultados podem ser surpreendentemente determinísticos. Não é o acaso, mas a resposta lógica a um problema ecológico bem definido.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





