A vitória expressiva do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição regional da Saxônia-Anhalt, um estado no leste do país, enviou ondas de choque por toda a Europa. A sigla ficou a poucos assentos de conquistar a maioria absoluta, abrindo a possibilidade real de formar o primeiro governo estadual de extrema-direita na Alemanha desde a era nazista.
A reação do chanceler Friedrich Merz, do partido de centro-direita CDU, foi de choque, mas também de teimosia. Segundo reportagem da Fortune, Merz afirmou que "desistir não é uma opção" e que sua "determinação em continuar o curso das reformas é inabalável". A leitura é clara: em vez de recalibrar a rota diante da insatisfação popular, o governo central aposta em mais do mesmo, testando os limites da paciência do eleitorado e a resiliência do sistema político alemão.
O 'cordão sanitário' sob pressão
A ascensão da AfD não é um raio em céu azul. O partido, com uma plataforma anti-imigração e simpática à Rússia, capitaliza sobre a frustração com a coalizão governista, marcada por disputas internas e uma agenda de reformas econômicas impopulares. O que está em jogo agora é o chamado "cordão sanitário" (firewall, no jargão político local), um pacto informal entre os partidos tradicionais de jamais cooperar ou formar governo com a AfD, cujo braço regional é considerado um grupo extremista pela agência de inteligência doméstica alemã.
Na Saxônia-Anhalt, esse pacto enfrenta seu teste mais duro. Com a AfD a apenas três assentos da maioria, a formação de um governo que a exclua exigiria uma aliança improvável e instável entre todos os outros partidos. A alternativa seria a AfD conseguir cooptar dissidentes ou negociar com a sigla de esquerda radical BSW, que compartilha de sua posição pró-Rússia, apesar de divergir em outros temas. A barreira que protegeu a política alemã do extremismo por décadas começa a apresentar fissuras visíveis.
Um sintoma europeu
A vitória foi celebrada por figuras como Elon Musk e Donald Trump, além de líderes de partidos populistas de direita em toda a Europa, da Espanha a Portugal. O resultado na Alemanha não é um evento isolado, mas um sintoma da reconfiguração política em curso no continente. Agendas centristas, focadas em austeridade fiscal e reformas estruturais, perdem apelo para narrativas que prometem soluções simples para problemas complexos como imigração e segurança.
Para o governo Merz, a vitória da AfD é uma distração perigosa em um momento de enormes desafios geopolíticos, incluindo a guerra na Ucrânia e as relações complexas com os Estados Unidos. Merz tentou assegurar aos aliados que as instituições alemãs são "resilientes e estáveis", mas o recado das urnas sugere uma profunda divisão interna que pode minar a capacidade de Berlim de projetar liderança e estabilidade no cenário internacional.
A insistência do chanceler em uma agenda que claramente alimenta a oposição pode ser vista como um ato de convicção ou como uma perigosa desconexão com a realidade. Enquanto a AfD busca caminhos para consolidar seu poder regional, a questão que fica não é apenas se o "cordão sanitário" irá resistir, mas por quanto tempo o centro político europeu pode ignorar as causas do descontentamento que abre espaço para os extremos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune




